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Construção / Eugène-Emmanuel Viollet-le-Duc

Construção / Eugène-Emmanuel Viollet-le-Duc
Construção / Eugène-Emmanuel Viollet-le-Duc, © Eugène-Emmanuel Viollet-le-Duc
© Eugène-Emmanuel Viollet-le-Duc

A construção é uma ciência; é também uma arte, ou seja, é necessário ao construtor o saber, a experiência e um sentimento natural. Nasce-se construtor; a ciência que se adquire não pode mais que desenvolver as sementes depositadas no cérebro dos homens destinados a dar um emprego útil, uma forma durável à matéria bruta. Assim ocorre com os povos como com os indivíduos: alguns são construtores desde o berço, outros não se tornarão jamais; o progresso da civilização acrescenta pouco a essa faculdade natural. A arquitetura e a construção devem ser ensinadas ou praticadas simultaneamente: a construção é o meio; a arquitetura, o resultado; e no entanto, há obras de arquitetura que não podem ser consideradas como construções, e há certas construções que não se saberia como incluir entre as obras de arquitetura. Alguns animais constroem, uns células, outros ninhos, montículos, galerias, tipos de cabanas, redes de fio: essas são de fato construções, isso não é arquitetura.

Construir, para o arquiteto, é empregar os materiais em razão de suas qualidades e de sua natureza própria, com a ideia preconcebida de satisfazer a uma necessidade pelos meios mais simples e mais sólidos; de dar à coisa construída a aparência da duração, proporções convenientes submetidas a certas regras impostas pelos sentidos, raciocínio e instinto humanos. Os métodos do construtor devem então variar em razão da natureza dos materiais, dos meios dos quais ele dispõe, das necessidades às quais ele deve satisfazer e da civilização em meio à qual ele nasceu.

Os gregos e os romanos foram construtores; no entanto esses dois povos partiram de princípios opostos, não empregaram os mesmos materiais, os puseram em obra por meios diferentes, e satisfizeram necessidades que não eram as mesmas. Também as aparências do monumento grego e do monumento romano diferem essencialmente. O grego emprega só o dintel em suas construções; o romano emprega o arco, e, em consequência a abóboda: isso por si só já indica como esses princípios opostos devem produzir construções muito diferentes quanto aos meios empregados e quanto à sua aparência. Nós não temos tornar conhecidas aqui as origens desses dois princípios e suas consequências; tomamos a arquitetura romana no ponto onde ela chegou nos últimos tempos do Império, pois essa é a fonte única da qual a idade média beberá.

O principio da construção romana é este: estabelecer pontos de apoio que ofereçam, por seu assentamento e sua perfeita coesão, massas suficientemente sólidas e homogêneas para resistir ao peso e ao empuxo das abóbodas; repartir esses pesos e empuxos sobre pilares fixos cuja resistência inerte seja suficiente. Assim, a construção romana não é senão uma concreção habilmente calculada cujas todas as partes desprovidas de elasticidade se mantêm pelas leis da gravidade e sua perfeita aderência. Na Grécia, a estabilidade é obtida apenas pela observação judiciosa das leis da gravidade; eles não procuram a aderência dos materiais; em uma palavra, eles não conhecem nem empregam as argamassas. As cargas agem, em seus monumentos, apenas verticalmente, eles têm então necessidade somente de resistências verticais; desconhecendo a abóboda, não têm que manter pressões oblíquas, isso que designamos como empuxos. Como os romanos procediam para obter resistências passivas e uma aderência perfeita entre todas as partes inertes de suas construções e as partes ativas, ou seja, entre os apoios e as abóbodas? Compunham alvenarias homogêneas através de pequenos materiais, de cascalho ou seixos reunidos por uma argamassa excelente, e encerravam esses enchimentos em um revestimento de tijolo, de xisto ou de silharia. Quanto às abóbodas, eles as formavam sobre cimbres através de arcos de tijolo ou de pierre en tête e de cimento compactado sobre as costelas de madeira docimbramento. Esse método apresentava numerosas vantagens: era expeditivo; permitia construir em todos os países edifícios, edifícios sobre uma mesma planta;  empregar exércitos ou mobilizações para levantá-los; era durável, econômico; não demandava mais que uma direção correta, a qual exige apenas um número restrito de trabalhadores hábeis e inteligentes, sob os quais pudesse trabalhar um número considerável de procedimentos simples; evitava os transportes lentos e onerosos de materiais volumosos, as máquinas para erguê-los; era enfim a consequência do estado social e politico da sociedade romana. Os romanos ergueram, não obstante, edifícios à maneira dos gregos, como seus templos e suas basílicas; mas esses monumentos são uma importação, e devem ser colocados fora do âmbito da autêntica construção romana.

Os bárbaros que invadiram as províncias romanas não trouxeram com eles artes e métodos de construção, ou pelo menos os elementos que eles introduziram na civilização romana em extinção não podiam ter senão uma influência muito fraca. Encontraram monumentos construídos e se serviram deles. Muito tempo depois da invasão do território galo-romano pelos bárbaros, ainda existia um grande número de edifícios antigos; isso que indica que as hordas germânicas não destruíram todos. Inclusive tentaram frequentemente repará-los, e logo também imitá-los.

Porém, depois de tão grandes desastres, as tradições deixadas pelos construtores romanos deveriam estar em grande medida perdidas; e sob o domínio dos Merovíngios, os edifícios erigidos na Gália não foram mais que reproduções bárbaras das construções antigas que se salvaram da guerra ou que puderam resistir a um longo abandono. Os poucos monumentos que nos restam, anteriores ao período carolíngio, não oferecem senão construções onde não se percebe mais que um pálido reflexo da arte romana, imitações grosseiras dos edifícios cujos restos numerosos cobriam ainda o chão. Apenas sob o reinado de Carlos Magno pôde-se ver algumas tentativas dos construtores para sair da ignorância na qual os séculos precedentes haviam mergulhado. As relações contínuas desse príncipe com o Oriente, seus contatos com a Lombardia, onde as últimas tradições da arte antiga pareceram refugiar-se, proporcionaram-lhe os meios para atrair para perto de si e dos países submetidos ao seu domínio construtores que soube utilizar com um zelo e uma perseverança notável. Certamente sua meta era fazer renascer as artes romanas; mas as fontes às quais teve que recorrer para chegar a esse resultado estavam profundamente modificadas em seus princípios. Carlos Magno não podia enviar arquitetos para estudar os monumentos da antiga Roma, porque ele não os tinha; não podia buscar artistas, geômetras, hábeis obreiros, senão no Oriente, na Espanha ou na Lombardia, as únicas regiões que os possuíam. Esses trouxeram com eles métodos já distantes daqueles da antiguidade. O renascimento carolíngio produziu então resultados muito diferentes dos que o seu autor provavelmente esperava. Depois de tudo, a meta era alcançada, uma vez que os novos elementos importados ao Ocidente logo exigiram esforços consideráveis, e que a partir dessa época as artes progrediram rapidamente. É a história desse progresso, do ponto de vista exclusivo da construção, que tentaremos mostrar, remetendo nossos leitores à palavra “Arquitetura” para tudo o que concerne ao desenvolvimento dessa arte, do século X ao XVI.

Durante a permanência do império romano, seja em Roma, seja em Bizâncio, é fácil de reconhecer que as abóbodas foram a preocupação dominante dos construtores. Da abóboda de berço eles logo alcançaram a de aresta, e da cúpula apoiada sobre muro circular ou tambor, eles chegaram, na construção da igreja de Santa Sofia, à abóboda semiesférica sobre pendentes: passo imenso, que estabelece uma linha de demarcação contundente entre as construções romanas da antiguidade e as da idade média. Nem em Roma, nem na Itália, nem na Gália, se pode ver um só edifício romano em que a abóboda semiesférica seja apoiada sobre pendentes. A igreja de Santa Sofia é a primeira que nos proporciona um exemplo desse tipo de construção, e, como se sabe, é a mais vasta cúpula que existe. Como os arquitetos romanos estabelecidos em Bizâncio chegaram a conceber e executar uma construção desse gênero? Isso não procuraremos desvendar. Tomaremos o fato onde, pela primeira vez, ele se manifesta com uma grandeza e uma franqueza incontestáveis. Cobrir um recinto circular por uma abóboda semiesférica era uma ideia muito natural e que foi adotada desde muito antigamente; perfurar com cilindros, com abóbodas de berço seu tambor circular era uma consequência imediata desse primeiro passo. Porém erguer uma cúpula semiesférica sobre uma planta quadrada, ou seja, sobre quatro pilares separados e situados nos ângulos de um quadrado, não era mais uma dedução do primeiro princípio, era uma inovação, e uma inovação das mais ousadas.

No entanto, os construtores que Carlos Magno fez vir da Lombardia e do Oriente ao Ocidente não trouxeram consigo esse modo de construção; eles se contentavam em erguer, como em Aix-la-Chapelle, abóbodas de base octogonal ou circular sobre tambores. Somente mais tarde as derivações da construção bizantina teriam uma influência direta no Ocidente. Quanto aos métodos dos construtores carolíngios, se assemelhavam aos métodos romanos, ou seja, consistiam em maciços de enchimento encerrados entre paramentos de tijolo, de xistos ou pedra, ou ainda de xistos alternados com fiadas de tijolo, tudo ligado por espessas juntas de argamassa.

© Eugène-Emmanuel Viollet-le-Duc
© Eugène-Emmanuel Viollet-le-Duc

Indicamos com um A as fiadas de tijolos triangulares apresentando seu lado maior sobre o paramento, e com B as fiadas de xisto quase regulares e apresentando suas faces, frequentemente quadradas, sobre os paramentos. Em C é representando um tijolo cuja espessura varia entre 4 e 5 centímetros, e em D um xisto de paramento. Isto não é senão uma construção romana grosseiramente executada. Porém os romanos não empregavam muito esse método, a não ser quando queriam revestir os paramentos de placas de mármore ou estuque; quando faziam paramentos de silharia, assentavam os silhares com juntas vivas, sem argamassa, entre suas sucessivas camadas, e lhes deixavam uma base ampla, para que esses paramentos se tornassem realmente um reforço capaz de resistir a uma pressão que os maciços sozinhos não poderiam suportar.

Desde os primeiros tempos da época carolíngia, os construtores quiseram também erguer construções com paramentos de silheria, à maneira de algumas construções romanas; mas eles não dispunham dos meios poderosos empregados pelos romanos: não podiam nem transportar, nem sobretudo elevar a uma certa altura os blocos de pedra de grande volume.  Contentaram-se portanto com a aparência, ou seja, ergueram paramentos formados por blocos de pedra colocados mais frequentemente no sentido de sua face menor e de pequena espessura, evitando com cuidado os ocos, e preenchendo os vazios deixados entre esses paramentos com cascalhos misturados à argamassa. Chegaram algumas vezes a querer imitar a construção romana de aparelho, colocando as placas de pedra com juntas vivas sem argamassa. Não é preciso dizer como essa construção é viciosa, ainda mais que suas argamassas eram medíocres, sua cal cozida ou mal apagada, sua areia terrosa e o enchimento extremamente irregular. Algumas vezes também adotaram um meio termo, ou seja, ergueram paramentos de silhares reunidos por camadas espessas de argamassa.

Esses ensaios, essas tentativas não constituíam uma arte. Se, nos detalhes da construção, os arquitetos demostravam um saber muito medíocre, se não podiam senão imitar muito mal os procedimentos romanos, com maior razão, no conjunto de seus edifícios, se encontravam continuamente encurralados por dificuldades que estavam longe de resolver: desprovidos de saber, dispondo apenas de tradições quase extintas, não possuindo nem obreiros hábeis, nem máquinas poderosas, avançando no escuro, eles deviam fazer, e fizeram de fato, esforços inauditos para erguer edifícios de pequenas dimensões, para proporcionar-lhes solidez, e sobretudo para abobadá-los. É aqui onde se reconhece sempre, nos monumentos carolíngios, a insuficiência dos construtores, onde se pode constatar sua dificuldade, suas incertezas, e muitas vezes inclusive um desânimo, produto da impotência. Dessa mesma ignorância dos procedimentos antigos, e sobretudo dos esforços constantes dos construtores do século IX ao XI, surgiu uma nova arte de construir: resultado de experiências inicialmente desafortunadas, mas que, repetidas com perseverança e uma sequência ininterrupta de aperfeiçoamentos, traçaram um caminho ainda não trilhado. Não foi preciso menos que três séculos para instruir esses bárbaros; eles puderam, no entanto, após tão lento esforço, se gabar de terem aberto aos construtores futuros uma nova era, que tomou pouca coisa das artes da antiguidade. As necessidades imperiosas com as quais esses primeiros construtores se depararam os obrigaram a buscar recursos em suas próprias observações antes que no estudo dos monumentos da antiguidade que conheciam apenas imperfeitamente, e que, na maioria das províncias gaulesas, não existiam senão em estado de ruína. Dispostos, por outro lado, a se apropriar dos produtos estrangeiros, os submetiam a seus procedimentos imperfeitos, e, os transformando assim, os faziam concorrer em uma arte única na qual o raciocínio estava mais presente que a tradição. Esta escola era dura: só se apoiava com incertezas no passado, frente às necessidades de uma civilização na qual tudo estava por criar, só possuía os elementos das ciências exatas, não tinham outra guia que o método experimental; porém esse método, se não é o mais adequado, tem pelo menos a vantagem de educar praticantes observadores, preocupados em reunir todos os aperfeiçoamentos que possam ajudá-los.

Já nos edifícios do século XI, vemos a construção fazer progressos sensíveis que são a consequência de erros evitados com mais ou menos habilidade; pois o erro e seus efeitos instruem mais os homens que as obras perfeitas. Não dispondo mais dos meios ativos empregados pelos romanos em suas construções; carecendo de braços, de dinheiro, de transportes, de relações, de estradas, de instrumentos, de máquinas; confinados em províncias separadas pelo regime feudal, os construtores só podiam contar com recursos muito escassos, e no entanto, já nesta época (no século XI), eram solicitados para erigir vastos monastérios, palácios, igrejas, muralhas. Era preciso que sua indústria suprisse tudo o que o engenho romano soubesse organizar, tudo o que nosso estado de civilização moderna nos fornece com profusão. Era preciso obter grandes resultados com pouco gasto (pois então o Ocidente era pobre), satisfazer às necessidades numerosas e urgentes sobre um solo devastado pela barbárie. Era preciso que o construtor buscasse os materiais, se ocupasse dos meios para transportá-los, combatesse a ignorância de obreiros inábeis, fizesse ele mesmo suas observações sobre as qualidades de cal, de areia, de pedra, fizesse suprimento de madeira; ele devia ser não só o arquiteto, senão o canteiro, o projetista, o aparelhador, mestre de obras, carpinteiro, caieiro, pedreiro, e só podia recorrer à sua inteligência e ao seu raciocínio de observador. É fácil para nós, hoje quando um tabelião ou um negociante pode construir uma casa sem subsídio de um arquiteto, considerar como grosseiros esses primeiros ensaios; mas a quantidade de aptidão que era necessária a um construtor para erguer um salão, uma igreja, era certamente superior à que exigimos de um arquiteto de nosso tempo, que pode construir sem conhecer os primeiros elementos de sua arte, como muito frequentemente ocorre. Naqueles tempos de ignorância e barbárie, os mais inteligentes, os que haviam se elevado por sua própria aptidão acima do nível do obreiro vulgar, eram os únicos capazes de dirigir uma construção; e a direção das edificações, necessariamente limitada a um número restrito de homens superiores, devia, por isso mesmo, produzir obras originais, em cuja execução o raciocínio intervém em grande medida, onde o cálculo está aparente, e cuja forma é revestida dessa distinção que é a característica particular das construções bem pensadas e que se submetem às necessidades e aos usos de um povo. É preciso reconhecer, a risco de sermos nós mesmos apelidados de bárbaros, que a beleza de uma construção não reside nos aperfeiçoamentos trazidos por uma civilização e uma indústria muito desenvolvidas, mas no judicioso emprego dos materiais e dos meios postos a disposição do construtor. Com nossos materiais tão numerosos, os metais que nos entregam de nossas usinas, com os obreiros hábeis e inumeráveis de nossas cidades, chegamos a erguer uma construção viciosa, absurda, ridícula, sem razão nem economia; enquanto que só com pedra e madeira se pode fazer uma boa, bela e judiciosa construção. Jamais, que saibamos, a variedade ou a perfeição da matéria empregada foi uma prova do mérito daquele que a emprega; e excelentes materiais são detestáveis se são empregados fora do lugar ou da função que os convém por um homem desprovido de saber e sentido. É preciso se orgulhar do bom e justo emprego dos materiais e não de sua quantidade ou qualidade. Isto seja dito entre parêntese e para convidar nossos leitores a não desdenhar os construtores que não tiveram à sua disposição senão pedra mal extraída, seixos ruins tirados do chão, cal mal cozida, utensílios imperfeitos e poucas máquinas; pois, com elementos tão grosseiros, esses construtores podem nos ensinar excelentes princípios, aplicáveis em todos os tempos. E a prova de que eles podem é que formaram uma escola que, do ponto de vista da ciência pratica ou teórica, do judicioso emprego dos materiais, chegou a um grau de perfeição não superado nos tempos modernos. Deixemos aqueles que ensinam a arquitetura sem haver praticado esta arte julgar as produções arquitetônicas das civilizações antigas e modernas apenas pela aparência, uma forma superficial que os seduziu; mas nós que somos chamados a construir, temos que buscar nossos ensinamentos através das tentativas e dos progressos desses arquitetos engenhosos que, partindo do nada, tiveram que fazer tudo para resolver os problemas colocados pela sociedade de seu tempo. Considerar os construtores da Idade Média como bárbaros porque tiveram que renunciar a construir empregando os métodos romanos, é não querer ter em conta o estado da nova sociedade; é desconhecer as modificações profundas introduzidas nos costumes pelo cristianismo, apoiado no talento dos povos ocidentais; é apagar muitos séculos de um trabalho lento, mas persistente, que se produzia no seio da sociedade: trabalho que desenvolveu os elementos mais ativos e vivazes da civilização moderna. Ninguém admira mais que nós a antiguidade, ninguém mais está disposto que nós a reconhecer a superioridade das belas épocas da arte dos gregos e dos romanos sobre as artes modernas; mas nascemos no século XIX, e não podemos evitar que entre a antiguidade e nós se interponha um trabalho considerável: ideias, necessidades, meios estrangeiros aos da antiguidade. Devemos ter em conta os novos elementos, as tendências de uma nova sociedade. Sintamos falta da organização social da antiguidade, estudemo-la escrupulosamente, recorramos a ela; porém não esqueçamos que já não vivemos sob o domínio de Péricles nem de Augusto; que não temos escravos; que três quartos da Europa não estão mais mergulhados na ignorância e na barbárie em proveito do primeiro quarto; que a sociedade não se divide mais em duas porções desiguais, a mais forte absolutamente submetida à outra; que as necessidades se estenderam ao infinito; que as engrenagens se complicaram; que a indústria analisa sem cessar todos os meios postos a disposição do homem e os transforma; que as tradições e as fórmulas foram substituídas pelo raciocínio, e que enfim a arte, para subsistir, deve conhecer o meio em que se desenvolve. A construção de edifícios na Idade Média começou a entrar nesta via completamente nova. Nós o lamentaremos, caso se queira, porém o fato não deixará de ser assim; e não poderemos fazer que o ontem não seja a véspera do hoje. Parece-nos que o melhor seja buscar no trabalho da véspera o que há de útil para nós hoje, e reconhecer se esse trabalho preparou o labor do dia. Isto será mais sensato que menosprezá-lo. 

Alegou-se muitas vezes que a Idade Média foi uma época excepcional, sem relação alguma com a que a precede nem com a que a segue, estrangeira ao gênio de nosso país e à civilização moderna. Isso talvez seja sustentável do ponto de vista da política; ainda que um fato semelhante seja muito estranho na história do mundo, onde tudo se encadeira; mas quando se mistura o partidarismo, não há paradoxo que não encontre apoiadores. Na arquitetura, e sobretudo na construção, o partidarismo não pode influir assim, e não vemos como os princípios da liberdade civil, como as leis modernas sob cujo regime tivemos a fortuna de nascer, se encontrariam atacados quando se demonstrasse que os construtores do século XII sabiam construir, que os do século XIII eram muito engenhosos e livres no emprego dos meios, que buscavam satisfazer os programas que lhes eram impostos pelos procedimentos mais simples e menos custosos, que raciocinavam de forma precisa e conheciam as leis da estática e do equilíbrio de forças. Um costume pode ser odioso e opressivo; os abades e os senhores feudais foram, caso se queira, uns perdulários, exerceram um despotismo insuportável, e os monastérios ou os castelos onde viviam podem ter sido, no entanto, construídos com sabedoria, economia e uma grande liberdade no emprego dos meios. Uma construção não é fanática, opressiva, tirânica; esses epítetos não foram ainda aplicados à reunião das pedras, da madeira ou do ferro. Uma construção é boa ou má, judiciosa ou desprovida de razão. Se nada temos a aprender do código feudal, isto não quer dizer que não tenhamos nada a aprender das construções daquele tempo. Um parlamento condena a infelizes judeus ou bruxos a serem queimados vivos; mas a sala em que se reúne este parlamento pode ser uma edificação muito boa e melhor construída que aquela na qual nossos magistrados aplicam leis sábias, com um espírito esclarecido. Um homem de letras, um historiador, disse, falando de um castelo feudal: “Esta guarida de bandidos, esta morada de pequenos déspotas que tiranizam seus vassalos, em guerra com seus vizinhos...”. Um protesto contra o castelo e seu dono ao mesmo tempo. Em que os edifícios são cúmplices daqueles que os fizeram construir, sobretudo se estes edifícios foram erguidos pelos mesmos que foram vítimas do abuso de poder de seus habitantes? Os gregos não mostraram, em muitas circunstâncias, o fanatismo mais odioso? Isso nos impede de admirar o Partenon ou o Templo de Teseu?

Já é tempo, acreditamos, de não mais nos deixarmos deslumbrar, nós arquitetos, pelo discurso daqueles que, alheios à prática de nossa arte, julgam obras que não podem compreender e das quais não conhecem nem a estrutura, nem o sentido verdadeiro e útil, e que, levados por suas paixões ou seus gostos pessoais, por estudos excludentes e um partidarismo estreito, lançam a maldição sobre artistas cujos esforços, ciência e experiência prática nos são, ainda hoje, de grande ajuda. Pouco nos importa que os senhores feudais fossem tiranos, que o clero medieval estivesse corrompido, que fosse ambicioso ou fanático, se os homens que construíram suas moradias eram engenhosos, se amaram sua arte e a praticaram com sabedoria e esmero. Pouco nos importa que um calabouço tenha encerrado homens vivos durante anos, se as pedras deste calabouço foram dispostas com habilidade suficiente para oferecer um obstáculo intransponível; pouco nos importa que uma grade tenha fechado uma câmara de tortura, se a grade está bem composta e o ferro bem forjado. A confusão entre as instituições e os produtos das artes não deve existir para nós, que buscamos o melhor onde quer que acreditemos o encontrar. Não sejamos enganados por doutrinas excludentes, censuremos os costumes dos tempos passados, se nos parecem maus; porém não proscrevamos suas artes antes de saber se não obteremos vantagem alguma de seu estudo. Deixemos aos amadores esclarecidos a preocupação de discutir a preeminência da arquitetura grega sobre a romana, desta sobre a da Idade Média; deixemo-los tratar dessas questões insolúveis; escutemo-los, se não tivermos nada de melhor a fazer, discorrer sobre nossa arte sem saber como se traça uma planta, como se talha e se assenta uma pedra: não é permitido em absoluto exercer a medicina e mesmo a farmácia sem ser médico ou boticário; porém a arquitetura, isso é outra questão!

Para nos darmos conta dos primeiros esforços dos construtores da Idade Média, é preciso primeiramente conhecer os elementos dos quais dispunham e os meios práticos então em uso. Os romanos, donos do mundo, haviam sabido estabelecer um governo regular, uniforme, entre tantos povos aliados ou conquistados, tinham entre as mãos recursos que faltariam absolutamente às províncias gaulesas divididas em pequenos estados, em frações inumeráveis, como consequência do estabelecimento do regime feudal. Os romanos, quando queriam cobrir uma região de monumentos de utilidade pública, podiam empregar neste local, em um dado momento, não apenas um exército de soldados habituados ao trabalho, mas também requisitar os habitantes (pois o sistema de mobilizações era praticado em grande escala pelos romanos), e obter, pelo concurso dessa multidão de braços, prodigiosos resultados. Eles adotaram, para construir rápido e bem, métodos que concordavam perfeitamente com esse estado social. Tivessem os construtores da Idade Média querido empregar esses métodos, onde encontrariam esses exércitos de trabalhadores? Como fazer chegar, em uma região desprovida de pedra, por exemplo, os materiais necessários à construção, uma vez que as antigas estradas romanas estavam esburacadas, que faltava dinheiro para comprar estes materiais, para obter animais de carga; uma vez que estas províncias estavam quase sempre em guerra umas contra as outras, que cada abadia, cada senhor se via como um soberano absoluto tanto mais zeloso de seu poder quanto exíguas eram as regiões sobre as quais ele se estendia? Como organizar mobilizações regulares de homens, ali onde muitos poderes disputavam a predominância, onde o número de braços mal era suficiente para cultivar o solo, onde a guerra era o estado normal? Como fazer esses enormes estoques de abastecimento necessários à menor das construções romanas? Como alimentar esses obreiros num mesmo lugar? As ordens religiosas, as primeiras, puderam sozinhas empreender construções importantes: 1º porque reuniam num mesmo lugar um número de trabalhadores bastante considerável unidos por um mesmo pensamento, submetidos a uma disciplina, exonerados do serviço militar, possuidores de territórios sobre os quais viviam; 2º porque acumularam bens que aumentaram rapidamente sob uma administração regular, nutriram relações contínuas com os estabelecimentos vizinhos, prepararam e recuperaram os terrenos não cultivados, traçaram estradas, receberam ou adquiriram as mais ricas pedreiras e os melhores bosques, ergueram fábricas, ofereceram aos camponeses garantias relativamente seguras, e povoaram assim rapidamente suas terras em detrimento das dos senhores laicos; 3º porque puderam, graças a seus privilégios e à estabilidade comparativa de suas instituições, formar, no seio de seus monastérios, escolas de artesãos submetidos a uma aprendizagem regular, vestidos, alimentados, mantidos, trabalhando sob uma mesma direção, conservando as tradições, registrando os aperfeiçoamentos; 4º porque só eles então estenderam ao longe sua influência fundando estabelecimentos dependentes do monastério principal, que aproveitariam assim todos os esforços parciais que se faziam em regiões bem distintas pelo clima, pelos costumes e hábitos. Foi graças à atividade das ordens religiosas que a arte da construção saiu, no século XI, da barbárie. A ordem de Cluny, como a mais considerável, a mais poderosa e a mais esclarecida, foi a primeira que teve uma escola de construtores cujos novos princípios deviam produzir, no século XII, monumentos libertos das últimas tradições romanas. Quais são esses princípios? Como se desenvolveram? Isso é o que devemos examinar.

Referência:
Eugène-Emmanuel Viollet-le-Duc, “Construction”, em seu Dictionnaire Raisonné de L'Architecture Française du XIe au XVe siècle, Tomo IV, pp.1-11, 1854-1868.

© Tradução: Igor Fracalossi. Colaboração: Flora Paim e Audrey Migliani.

* Agradecemos a Sérgio Marques pela sugestão do artigo.

Cita: Igor Fracalossi. "Construção / Eugène-Emmanuel Viollet-le-Duc" 03 Abr 2014. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/188569/construcao-slash-eugene-emmanuel-viollet-le-duc> ISSN 0719-8906