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O medo sustenta o urbanismo sustentável

  • 14:00 - 15 Março, 2014
  • por
  • Traduzido por Camilla Sbeghen
O medo sustenta o urbanismo sustentável
O medo sustenta o urbanismo sustentável, ‘Habitat do Homo Economicus’, uma parte da "Hipnose Competitiva", Mostra de Arte e Arquitetura de New York, 2013. Imagem Cortesia de Ross Exo Adams e Ivonne Santoyo-Orozco
‘Habitat do Homo Economicus’, uma parte da "Hipnose Competitiva", Mostra de Arte e Arquitetura de New York, 2013. Imagem Cortesia de Ross Exo Adams e Ivonne Santoyo-Orozco

Neste artigo, originalmente publicado no Australian Design Review como "Saudade de um Verde Presente", Ross Exo-Adams examina o medo que está por trás da tendência do urbanismo sustentável, e considera que a crise em meio a qual nos encontramos não pode ser confinada somente para as questões ecológicas.

Na última década, os arquitetos encontraram-se cada vez mais projetando distritos, bairros, zonas francas e até mesmo novas cidades inteiras: um fenômeno que tem sido acompanhado por um compromisso com a ‘sustentabilidade’, que agora aparece inseparável do próprio projeto de urbanismo. Enquanto a 'sustentabilidade' continua sendo um conceito vago, na melhor das hipóteses, ainda assim é se apresentada com senso de urgência semelhante àqueles que impulsionaram muitos dos grandes movimentos da arquitetura moderna frente à frente com a cidade. Implícita a tal urgência está uma referência retórica a um medo coletivo de alguma forma palpável, seja o medo da revolução (Le Corbusier), medo da tabula rasa cultural (Jane Jacobs, Team X) ou o nosso novo medo: colapso ecológico. É óbvio que os inumeráveis projetos "eco" que surgiram em todo o mundo não seriam viáveis se não o fato de eles apareceram em um contexto de catástrofe iminente - uma condição de proporções assustadoras. No entanto, a essência desse medo está longe de ser clara. De fato, à luz da catástrofe ecológica e em meio a qualquer fetiche por moinhos de vento ou por vegetação, os arquitetos têm cultivado o que parece ser uma nostalgia curiosa para o presente - um pragmatismo cuja falta de paciência para o passado procura uma espécie de reconstituição do presente em imaginar qualquer futuro. Então, se não a do caos climático, qual é a verdadeira natureza desse medo que está no cerne dos projetos urbanísticos de hoje, os '"urbanismos ecológicos"?

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Fresh Hills, um vice-campeão em uma competição de design para Freshkills Park, em Staten Island, NYC por Matthew Rosenberg, Matt Melnyk, Emmy Maruta e Robbie Eleazer;. Imagem Cortesia de LAGI
Fresh Hills, um vice-campeão em uma competição de design para Freshkills Park, em Staten Island, NYC por Matthew Rosenberg, Matt Melnyk, Emmy Maruta e Robbie Eleazer;. Imagem Cortesia de LAGI

Futuro: Urbanismo Ecológico

Claro que, para falar sobre sustentabilidade hoje, significa falar sobre um futuro projetado, evitando a todo o custo as pretensões de planejá-lo: no mundo da sustentabilidade, o futuro aparece como uma matriz de dados, estatísticas e metas, que tem como objetivo responder à iminentes registros universais de como abordar uma catástrofe. É um futuro não planejado, mas sim gerenciado. Projetar dentro desse mundo é uma tarefa delicada, um jogo entre os perigos desse futuro e a promessa de salvação, tudo transcrito na linguagem objetiva dos fatos. O desenho urbano integra o futuro como uma projeção científica do presente. Se essas projeções são arquitetonicamente vagas, elas são compensadas pelas projeções econômicas resistentes, em torno das quais o projeto urbanístico verdadeiramente está pendendo, sustentar um futuro não somente por razões ecológicas, mas também por razões econômicas.

Na verdade, para dar a tais projetos uma força, a retórica da sustentabilidade mobiliza um novo senso de moralidade em relação a catástrofe ecológica. Desta forma, o discurso sobre sustentabilidade possui um dever de apelo humanitário inevitável e ainda implícito. Como esses ideais alimentam uma economia de boas intenções, eles permanecem além da análise, envolvendo o projeto em uma silenciosa suspensão de julgamento. A linguagem da sustentabilidade desempenha um papel crucial na propagação desse trabalho, pois, longe de transformar radicalmente a cidade, a tarefa de desenho urbano, hoje em última análise, continua a nutrir o projeto de uma maneira diferente, através de um desenho comum com um suplemento retórico da bondade moral. Assim, o projeto de sustentabilidade se desdobra como uma promessa para um futuro apreendido apenas na sua consistência estatística, embora nunca considerado em sua concretização.

Falar sobre o design de tais projetos é em si uma tarefa complicada, uma vez que um projeto verdadeiramente "ecológico", ao invés de resultar de um formalismo arquitetônico, deve emergir dos vários sistemas da natureza que o pré-configuram: agora é tarefa do arquiteto identificar os sistemas espaciais da natureza. A suspensão do julgamento também ajuda a conceder ao projeto urbano uma espécie de liberdade formal, cuja indeterminação reflete as novas complexidades da realidade que o urbanismo ecológico deve agora fazer uso. Várias organizações da natureza são mapeadas no local para assim, oferecer uma disciplina básica estrutural sob as quais a população urbana deve submeter-se humildemente. Complementando gestos como esse, os chamados "corredores verdes" são planejados, que infiltram-se suavemente na cidade, "reconectando" as passagens naturais que a cidade tinha de algum modo bloqueado. Coberturas das edificações são agora densas florestas e passarelas urbanas urbanas aparecem como caminhos florestais. Como uma identidade formal e material, a arquitetura deve desaparecer: é uma necessidade infeliz da cidade que ainda não foi capaz de ser construída sem ela. Em vez disso, ela deve compensar sua carga na natureza com o uso excessivo de vidro - ato triunfal da arquitetura de auto-aniquilação.

Peruri 88 by MVDRV. Image © RSI Studio
Peruri 88 by MVDRV. Image © RSI Studio

Passado: Liberalismo, Natureza, Urbanismo

Apesar de toda a aparente novidade metodológica (ecológica) do urbanismo contemporâneo, a sua novidade é questionável. Se pudermos traçar o nascimento do termo "urbanismo" do século XIX - uma categoria ideologicamente relacionada às políticas emergentes do liberalismo - podemos observar várias ligações importantes com o atual conceito de urbanismo e desenho urbano. Quase um século depois da descoberta dos fisiocratas sobre o "caráter natural" inerente às relações sociais e econômicas, as transformações do estado começaria a perceber o potencial dessa "natureza" através de um programa do liberalismo político do século XIX. E assim como p liberalismo tem suas raízes fisiocratas (o "governo da natureza"), também fez com que o urbanismo se materializasse em um discurso pseudo-científico da natureza, que, em vez de impedir a "naturalidade" inerente da sociedade, procurou fazer uso da sua eventualidade, realidades e fenômenos naturais. No século XIX, os planejadores tinham reformulado totalmente a cidade como um "organismo biológico" onde naturalmente, as "partes funcionais" foram habilitadas por meio de estratégias de conectividade de infra-estrutura. O foco dos urbanistas é políticos tornou-se otimizar os sistemas de circulação para desencadear as capacidades de uma sociedade deixada à sua própria natureza - a "naturalidade" seria realizada através de uma massiva implantação dos sistemas de infra-estrutura moderna. Além disso, vislumbrando a cidade através de uma lente científica assessorada para esgotar a sua consistência política. Ao fazer isso, a forma urbana foi proferida independente da organização real da cidade, que se tornou, ao invés disso, em um sistema expansível de circulação e habitação. Desse modo, a cidade foi composta rigidamente ou vagamente de formas orgânicas, que cada mais desmentem uma indeterminação comum no coração da organização da cidade. Essa condição só se intensificou durante o século XX, desde a Cidade Jardim de Howard até os experimentos modernistas no funcionalismo e o movimento Metabolista entre outros inúmeros fascínios como os sistemas naturais.

Até mesmo como uma lembrança superficial do esquema básico proposto pelo urbanismo ecológico deixa claro que o novo urbanismo "sustentável"se insere confortavelmente dentro da história urbana. Em um nível fundamental, o locus operante de qualquer projeto "sustentável" permanece fielmente dentro dos sistemas de infra-estrutura e das estratégias de implantação no espaço. Além disso, a indeterminação e a permutabilidade desempenham um papel ainda mais forte na categoria de "uso misto" - uma categoria de desenvolvimento comercial que desloca toda a decisão da parte projetual para os caprichos do mercado, garantindo o cisma entre a forma urbana e a organização. Como tal, uma cidade ecologicamente projetada através das considerações do clima, ventos, luz, drenagem de água etc, pode se tornar tão convenientemente "sustentável" para o cliente através da criação de uma espécie de logotipo comercial. Por último, a parte "científica" que acompanha a sustentabilidade é, em geral, um remake das mesmas metáforas que foram aplicadas na cidade do século XIX, propondo a mesma adesão a um dogma positivista, um urbanismo baseado na infra-estrutura. Essa história do urbanismo é perpetuada através da reprodução no presente, cuja o valor é imediatamente coberto pelo espetáculo das novidades da tecnologia. Como tal, o urbanismo ecológico não é nada mais do que o produto do centenário urbanismo liberal, cuja novidade agora inclui estratégias de infra-estrutura para distribuição da "natureza".  Essa novidade tenta representar a oposição entre natureza e a cidade obsoleta, uma vez que a cidade agora aparece como uma espécie de salvadora da natureza. No entanto, dizer que o urbanismo ecológico é simplesmente a repetição atual do urbanismo moderno revelaria algo mais sobre os objetivos ideológicos de tal projeto. Primeiramente, a incorporação da natureza dentro do domínio da infra-estrutura é uma ideia nova a medida em que produz uma inversão retórica em relação à virtude inerente do urbano: não mais a fonte da catástrofe ecológica, o urbanismo aparece agora como seu antídoto. Em segundo lugar, devido ao clima neo-liberal em que a sustentabilidade tem amadurecido, a cidade como um todo tornou-se um objeto de investimento privado, criando, talvez pela primeira vez na história moderna, a possibilidade da cidade privada. Essa mudança atingiu seu ápice, em parte, graças ao surgimento do urbanismo ecológico, expondo o desenvolvimento urbano puramente capitalista a um discurso carregado de notas de salvação. Justo quando estava ficando claro que a história da urbanização moderna coincidiu com a história do desastre ecológico, a figura da cidade foi radicalmente transfigurada em uma estrutura tecnológica de redenção, concedendo uma espécie de urgência escatológica para o desenvolvimento em larga escala. Medo, mobilizado pela crise ecológica, permanecerá no centro dessa urgência.

The design for Cornell's new campus on Roosevelt Island. Image Courtesy of Cornell University
The design for Cornell's new campus on Roosevelt Island. Image Courtesy of Cornell University

Presente: Crise, Medo, Reforma

Limite entre um futuro desconhecido e não planejado e um passado perpetualmente esquecido, o nosso momento presente tornou-se determinado pela crise. "Crise", no final do século XVIII, tornou-se uma "assinatura estrutural da modernidade", de acordo com Reinhar Koselleck. Através do conceito moderno de crise, o seu significado ampliado foi utilizado como uma força histórica motivacional, legitimando as categorias de "progresso" reformista. As crises, a partir do século XVII, seriam vistas como um registro cíclico da história, cujo outro lado da moeda sera a reforma. Planejadores e arquitetos fizeram uso desse ciclo crise-reforma para gerar força política e econômica por trás dos projetos. A famosa frase de Le Corbusier, "arquitetura ou revolução", é precisamente tal clamor por reforma. E, nas suas proliferações mais contemporâneas, Koselleck nos diz: "[o] conceito de crise, que já teve o poder de representar alternativas inevitáveis, duras e não negociáveis, foi transformado para atender às incertezas de qualquer coisa que possa ser favorecida em um determinado momento." 

A falta de determinação evidente no discurso da sustentabilidade e reproduzida na prática do desenho urbano ecológico só é explicável pela indeterminação aparente da natureza com a qual crise ecológica é tratada. No entanto, se a própria consistência da crise ecológica é tão vaga, qual é a verdadeira fonte do nosso medo? Examinando qualquer uma das representações hiper-reais que se tornaram representações comuns de projetos, torna-se evidente que, ao invés de se aproximar da verdadeira profundidade da catástrofe ecológica, esses projetos tratam de uma ansiedade completamente diferente. O apelo à sensação aparece tão proeminente em tais imagens, que muitas vezes pode esconder uma leitura clara do conteúdo real da imagem. Por dentro do ambiente saturado e pela falta de uma distinção entre o primeiro plano e o fundo, aí reside uma liminar implícita para visualizar a imagem com uma espécie de melancolia, como se fosse uma "foto instantânea" de uma vida que aparentemente "era uma vez" - uma imagem que, não indicando nem o passado, nem o futuro, pergunta não o que poderia ser, mas o que deveria ser. Composta pela retórica do desastre climático embutido no urbanismo ecológico, podemos visualizar essas imagens como uma espécie de catálogo visual de tudo que está ameaçado e preservado. Longe de ser uma preocupação com a aniquilação da natureza - a natureza em tais imagens aparece ão como um deserto em perigo, mas como uma superfície abundante e manipulável, um (grande) acessória urbano - ais imagens tornam visível outro medo muito mais profundo e de fato politizado. O que é transmitido é o medo da perda, não da natureza ameaçada e sua capacidade de sustentar a vida, mas a perda das condições que sustentam a utopia liberal ameaçada. Simplesmente retirando os acessórios tecnológicos e vegetais de tas imagens, esse medo da perda torna-se claro: as composições propõem um pouco mais do que uma nostalgia liberal para o presente - um presente que é etéreo, simulado. Os ecos morais nessa estrutura retórica em última análise, serve para disciplinar a imaginação arquitetônica, reduzindo-a em uma reinterpretação patológica do presente.

Se, ao longo da modernidade temos cultivado uma percepção do futuro como algo a ser planejado, hoje damos testemunho a uma nova atitude para com o futuro, que propõe ao invés de controlá-lo. O efeito dessa mudança é uma paralisia do presente, que é, então, perpetuamente monitorado, ajustado e re-administrado continuamente para o futuro. Desta forma, talvez a verdadeira crise que a profissão enfrenta é o tratamento persistentemente liberal da "crise" em si, pois, igual Koselleck disse, como uma "tendência para a imprecisão e indefinição [...] pode-se ser vista como o sintoma de uma crise histórica que ainda não pode ser totalmente avaliada.

Ross Adams possui Mestrado em Arquitetura pelo Instituto Berlage, em Rotterdam, NL, e é bacharel em Ciência Biomaterial pela Universidade de Carolina do Norte, Chapel Hill. Ele já trabalhou como arquiteto e urbanista em escritórios como MVRDV, Foster & Partners, Arup e Productora. Atualmente, ele está concluindo seu doutorado na London Consortium.

Sobre este autor
Ross Exo Adams
Autor
Cita: Exo Adams, Ross. "O medo sustenta o urbanismo sustentável" [The Fear Sustaining Sustainable Urbanism] 15 Mar 2014. ArchDaily Brasil. (Trad. Sbeghen Ghisleni, Camila) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/182818/o-medo-sustenta-o-urbanismo-sustentavel> ISSN 0719-8906

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