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Um mundo criado na China: A cidade de Shenzhen quer ser uma fábrica de valores

Um mundo criado na China: A cidade de Shenzhen quer ser uma fábrica de valores
Um mundo criado na China: A cidade de Shenzhen quer ser uma fábrica de valores, Cortesia de Cortesia de Will In Hong Kong
Cortesia de Cortesia de Will In Hong Kong

RESUMO: 

Cidade com maior crescimento mundial do PIB ao longo da década passada sedia principal bienal de arquitetura e urbanismo da Ásia. Evento pretende fazer de Shenzhen um laboratório para discutir e pensar as cidades, servindo assim de modelo e catapulta para que o "made in China" se torne "designed in China".

A cidade chinesa de Shenzhen inaugurou, em dezembro, a quinta edição de sua Bienal de Arquitetura e Urbanismo, realizada em colaboração com a vizinha Hong Kong. O evento, que segue até o fim deste mês, foi criado em 2005, em uma metrópole economicamente muito pujante, mas estéril do ponto de vista cultural, e contou desde logo com amplos investimentos públicos e privados, tornando-se rapidamente a Bienal de Arquitetura mais importante da Ásia.

O palco da bienal se liga bem ao tema deste ano, as fronteiras urbanas. O evento está sediado no limite oeste de Shenzhen, na Zona Industrial de Shekou, junto ao terminal de "ferryboat" que conecta a China continental a Macau e Hong Kong. Mais especificamente, ocupa um antigo armazém ao lado do próprio terminal, além de um imponente conjunto de edifícios --galpões e silos-- que abrigava a fábrica de vidros Guangdong.

Desativada em 2009, ela foi rebatizada por Ole Bouman, ex-diretor do Instituto Holandês de Arquitetura e curador do evento, como Fábrica de Valores. Pois, extinto o valor industrial dos edifícios --de onde saíram os vidros que compõem as fachadas cristalinas e espelhadas das inúmeras torres de Shenzhen e das outras cidades em crescimento na região--, eles agora devem produzir valores em outra moeda: a cultura.

Está claro que a fábrica de Bouman pretende induzir a passagem do conhecido lema "made in China", estigma laboral ligado à abundante mão de obra barata no país, para o novo mote criativo (cultural e tecnológico) que se pretende dominante nas próximas décadas: "designed in China".

POLOS:

 A cidade de Shenzhen cresceu baseada justamente em dois polos produtivos: o trabalho manufatureiro industrial, de um lado, e a pesquisa tecnológica de ponta, de outro. Daí a junção, na cidade, de migrantes das zonas rurais com jovens formados nas universidades de elite do país. Cidade com o maior crescimento mundial do PIB ao longo da década passada (por volta de 28% a cada ano), tem média etária abaixo de 30 anos e aproximadamente 70% de sua população é flutuante.

Simples conjunto de vilas de pescadores até 1980, Shenzhen passou por um processo de urbanização e crescimento econômico vertiginoso a partir daquela década, sendo a primeira e mais bem-sucedida Zona Econômica Especial chinesa (ZEE).

Formadas na região do delta do rio Pérola, que desemboca nas ex-colônias estrangeiras e capitalistas de Hong Kong e Macau, as ZEEs foram criadas para permitir a transição gradual entre a economia planificada estatal do regime socialista e a economia de mercado.

Ao mesmo tempo, elas tinham o propósito de reverter aceleradamente a desurbanização promovida por Mao Tse-tung (1949-76). Sob o comando do pragmático Deng Xiaoping (1978-92), criador das ZEEs, a China começou a se urbanizar de forma avassaladora, e a riqueza passou a ser um valor cultuado socialmente.

Vizinha a Hong Kong e situada em uma baía protegida, a nova cidade de Shenzhen já possuía, de partida, a localização ideal para a criação de um porto estratégico na região, o que fez do lugar, naturalmente, um grande polo industrial, forte tanto na produção de artigos manufatureiros baratos exportados para o mundo inteiro, quanto na construção de cidades: edifícios e infraestrutura.

Com aproximadamente 30 anos de vida, Shenzhen tem hoje oficialmente 11 milhões de habitantes, um centro financeiro pujante, uma Bolsa de Valores --cuja sede foi projetada pelo holandês Rem Koolhaas, vencedor do Prêmio Pritzker em 2000--, e um skyline marcado por prédios altíssimos, que abrigam bancos e proeminentes companhias de tecnologia, hotéis de alto padrão e habitação. Com 180 quilômetros de extensão, sua rede metroviária é duas vezes e meia maior do que a de São Paulo.

Apesar de ser uma típica cidade artificial, feia e sem qualquer ponto distintivo, Shenzhen possui calçadas largas, ciclovias e faixas exclusivas de ônibus, além de térreos comerciais em quase todos os seus edifícios, o que confere grande vigor à vida nas ruas. Nada mal para uma cidade que surgiu do nada e cresceu tão rapidamente.

CRESCIMENTO:

Crescimento era o mote do material que levamos à Bienal de Shenzhen --uma versão resumida da exposição "Brasil: o Espetáculo do Crescimento", que fizemos para a 10ª Bienal de Arquitetura de São Paulo, encerrada poucos dias antes da abertura da mostra chinesa.

A exposição apresenta, de modo crítico, o crescimento urbano e econômico de cidades médias nos estados de Pernambuco e Pará nos últimos dez anos, baseado na ascensão do agronegócio e da mineração e alicerçado por grandes obras de infraestrutura, como a usina de Belo Monte, o porto de Suape, a Ferrovia Transnordestina, a transposição do rio São Francisco e os grandes conjuntos residenciais do programa "Minha Casa, Minha Vida".

Mas como sustentar a ideia da elevação forçada do PIB brasileiro através do boom imobiliário simbolizado por tais conjuntos de casinhas, em face da densidade de torres altíssimas de Shenzhen e das cidades chinesas em geral? De que "espetáculo" estamos falando?

Se na Bienal de São Paulo enfocamos, em grande medida, modos contemporâneos de estar na cidade e de transformá-la a partir do uso --o que se refletiu na sua conformação, com eventos inseridos na metrópole, abordando em cheio a questão da mobilidade que motivara os protestos de 2013--, a de Shenzhen aborda claramente os "modos de fazer" a cidade.

Talvez seja o único caminho possível em um país de regime centralizado, em que as cidades estão sendo inteiramente construídas de cima para baixo, em processos avassaladores nos quais a dinâmica do "fazer" erradica todas as antigas formas de usá-las.

Esse é, aliás, um tema muito bem tratado tanto em alguns livros lançados recentemente sobre a nova urbanização da China quanto nos excelentes filmes do diretor chinês Jia Zhang-Ke, como "Still Life" (2006) e o mais recente "Um Toque de Pecado" (2013).

No livro "How the City Moved to Mr. Sun: China's New Megacities" [Sun, US$ 52, aprox. R$ 125, 328 págs.], os holandeses Michiel Hulshof, jornalista, e Daan Roggeveen, arquiteto, descrevem, entre outros casos, as desventuras de Sun Huanzong, um camponês, morador dos arredores de Shijiazhuang, que passou por vários processos de desapropriação.

Quando a primeira onda de urbanização chegou às suas terras, em meados dos anos 1990, Sun usou a baixa indenização que recebeu para construir, na cidade, um edifício multifuncional, misturando sua residência a comércio e apartamentos para aluguel, um internet café e uma cobertura-jardim com horta, miniaturizando sua antiga fazenda. É o que na China se chama "aldeia na cidade".

Como mostram os autores, esse processo corresponde ao primeiro estágio de expansão urbana no país, no qual os antigos produtores rurais se tornam empreendedores imobiliários, dando origem a uma cidade marcada pela mistura de usos e por extensões informais e orgânicas dos edifícios --aquilo que chamamos de "puxadinhos".

Ocorre que, em uma segunda etapa, que não demora muito a chegar, o planejamento estatal "coletivista" vem derrubando essa cidade vibrante e caótica para erguer grandes empreendimentos estéreis no seu lugar, feitos de imensas torres e shopping centers.

No caso de Mr. Sun, como em muitos outros, o comitê da antiga aldeia foi subornado e, em 2009, os camponeses empreendedores foram obrigados a entregar seus imóveis para a companhia urbanizadora em troca de dois apartamentos nas novas torres. Os que resistiram foram espancados por bandos de mercenários, como ocorre em muitos outros casos --o fenômeno é tão assimilado que acabou dando origem a um popular videogame na China, em que o jogador, na posição dos moradores atacados, usa armas do Exército para exterminar tais gangues.

RUÍNAS:

A grande estrutura de concreto da antiga fábrica de vidro lembra não apenas a Tate Modern londrina mas também o espaço do Arte/Cidade feito em São Paulo nas ruínas das Fábricas Matarazzo. Ocorre que o "velho" edifício de Shenzhen foi inaugurado em 1987, há apenas 25 anos. Diante disso, fica claro que é impossível sustentar a antiga percepção de Lévi-Strauss acerca das cidades da América --e de São Paulo em especial-- como os lugares em que os estágios de construção e de ruína praticamente coexistem. Até nisso os chineses nos atropelaram.

No pavilhão organizado pelos patrocinadores do evento, vídeos feitos com computação gráfica mostram imensas áreas muito semelhantes à Zona Industrial de Shekou desaparecendo instantaneamente, para dar lugar a torres que irrompem do chão abruptamente como se fossem a Cordilheira dos Andes após o choque de placas tectônicas.

No debate que abriu o evento, procurei levantar a questão do eclipsamento do valor de uso das cidades em face do seu crescente e cada vez mais abstrato valor de troca. Onde localizar a noção de valor hoje em dia? De que maneira ainda é possível construí-la como categoria operativa, quando tudo virou especulação?

Já Ole Bouman reforçou a sua proposta de implantar ali a Fábrica de Valores, estruturada por workshops e cursos de teoria e curadoria em arquitetura e urbanismo, e propôs a criação de uma Zona Cultural Especial (ZCE) em Shekou. Se ele estiver certo, a "missão cultural holandesa" formará a nova geração de curadores e "players" culturais chineses que desenhará o mundo nas próximas décadas.

De modo complementar, não será surpreendente se na próxima Bienal de Shenzhen o bairro de Shekou não for mais uma fronteira urbana, e a alta chaminé da antiga fábrica de vidros, que hoje reina soberana no lugar, parecer apenas um poste atarracado em meio ao novo skyline da região.

Texto originalmente publicado na Folha de São Paulo

Sobre este autor
Guilherme Wisnik
Autor
Cita: Guilherme Wisnik. "Um mundo criado na China: A cidade de Shenzhen quer ser uma fábrica de valores" 19 Fev 2014. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/178163/um-mundo-criado-na-china-a-cidade-de-shenzhen-quer-ser-uma-fabrica-de-valores> ISSN 0719-8906