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Construção Formal / Fabio Cruz

Construção Formal / Fabio Cruz
Construção Formal / Fabio Cruz, Casa em Jean Mermoz. Image © Archivo Historico José Vial Armstrong
Casa em Jean Mermoz. Image © Archivo Historico José Vial Armstrong

PROPOSIÇÃO GERAL

a. Corpos Materiais e Artificiais

Se olhamos ao nosso redor, vemos que estamos rodeados de uma infinidade de corpos materiais de que nos servimos para dar curso de nossa vida: utensílios, ferramentas, máquinas, móveis, edificações, etc.

Estes corpos não se encontram na natureza com a ordem, forma e características que lhes exigimos. Ou seja, que foi necessário construi-los especialmente. São, portanto, corpos artificiais ou “artefatos” (artifício, feito por arte).

Para sua construção empregamos materiais de distinta índole que transformamos (modificamos sua forma) e dispomos no espaço segundo uma ordem que havíamos proposto de antemão, segundo um “projeto”. Tais materiais a que lançamos mão chamamos, falando em termos gerais, “matéria-prima”.

Cabe assinalar que salvo quando se trata de situações especialmente primitivas ou isoladas, a “matéria-prima” com que se constrói um corpo artificial não se encontra em estado natural, senão que forma parte de um patrimônio de materiais que foi preparado em processos anteriores.

Podemos distinguir três situações ou momentos em este construir-se dos objetos aludidos:

- A existência de um propósito inicial (ou projeto) em que se prefigura o ordenamento que haverá que dar ao ou aos materiais.

- O processo em que os materiais vão se dispondo concretamente segundo o propósito.

- A existência independente e acabada do novo corpo material.

b. Aspecto Construtivo Formal

Neste estudo nos propomos refletir fundamentalmente em torno ao segundo passo desta sequência, o qual se vincula necessariamente com o primeiro e o último. Além disso, esta reflexão será feita desde o ponto de vista da consecução da forma material do objeto, por isso ao curso denominamos “construção formal”.

Com isto queremos dizer que se tratará de reparar e considerar só aqueles aspectos que tenham incidência direta na forma do corpo.

Este ponto de vista abre o campo do estudo a qualquer magnitude que possa ter o corpo ou artefato construído –magnitude, isso sim, de ordem macroscópica– desde um alfinete ou uma engrenagem de relógio até o muro de uma represa ou a faixa de um caminho; e ante qualquer material sólido: corpos de aço, de madeira, de terra, de palha ou de lã; ante qualquer posição ou localização no espaço: uma peça solta (por exemplo um prego) ou um pilar engastado no solo, ou seja, num ponto preciso da terra; ante qualquer função: um sulco para semear, uma janela, uma xícara; ante qualquer grau de desenvolvimento tecnológico: o construído por povos selvagens ou civilizados.

Pretende-se assim abarcar todas as obras materiais que edificam os homens, de acordo a um propósito formal, e ter um grau de generalidade que seja válido em todos os casos.

Voltando ao destacado anteriormente com respeito aos três momentos que distinguimos, podemos agora precisar mais e dizer: o propósito aludido é um propósito formal; os materiais são selecionados e dispostos no espaço em razão da consecução de uma forma; finalmente, o que cobra existência independente é um corpo conformado.

É devido a este ponto de vista específico que não se considera, por exemplo, propriedades de resistência, ou tais como as acústicas ou térmicas ou de condutibilidade elétrica que possam ter os materiais como tampouco suas características “plásticas” (estéticas).

c. Imagem Formal

Visto globalmente, podemos dizer que neste processo teve lugar o passo de um propósito mental-“interior” a uma realização material-“exterior”; em outras palavras, o passo de uma imagem a um corpo concreto material.

Com relação ao ‘propósito formal’ ou ‘imagem formal’, que mencionamos, cabe destacar que com ela estamos aludindo à figuração (“simulação”) que fazemos mentalmente do objeto que queremos realizar, não se pretende aludir em nenhum caso a como se origina ou gere em nós tal propósito ou vontade de realização. E para mais claridade, podemos dizer que tal propósito ou imagem formal se configura igualmente e com similares características para nosso estudo quando se trata de reproduzir ou copiar um objeto material já existente, o qual se constitui assim no modelo que guia nossa atividade construtora. Neste caso, para poder levar a cabo a construção do novo corpo é absolutamente imprescindível que o objeto que serve de modelo primeiro se “converta” em propósito formal: o objeto material em si é inerte, inoperante (aqui não estamos nos referindo a seres orgânicos viventes).

Segundo o afirmado, poderíamos definir agora a construção que nos propomos estudar como o “processo de materialização de uma imagem formal”.

Se nos detemos a refletir neste processo veremos que encerra um fato muito complexo e difícil de explicar: esse passo –ou melhor dito salto– que é necessário dar para relacionar dois domínios aparentemente contraditórios e irreconciliáveis: o pensamento (ao qual pertence a imagem), que é o das abstrações e generalizações; e o do material, que é justamente o das particularidades.

E, no entanto, para que se possa construir artificialmente um novo corpo material é iniludível que se produza este encontra especial e esta sorte de adequação imprópria.

Transmissão de Informação Formal

Como tem lugar este encontro? Podemos desde logo afirmar o seguinte: é necessário que o propósito formal (ou imagem propósito, ou projeto formal) adquira uma modalidade e características tais que sejam transmissíveis aos materiais e, obviamente, recebíveis por estes (que seja “entendível” pelos materiais!).

Capacidade Formal

À aptidão do material para receber sob certa maneira e em determinadas condições o propósito formal, denominaremos Capacidade Formal. Por muito múltiplos e variantes que nos apareçam estas capacidades em alguns materiais, podemos dizer que para os efeitos do processo construtivo, cada material tem certas potencialidades formais e não outras. Dito em termos metafóricos, o material poderá “entender” uma gama delimitada de instruções formais; variável, desde logo, segundo as condições em que estas são transmitidas.

Abstração

Trata-se, então, da transmissão e recepção de uma informação (informação, in-formar, introduzir uma forma).

Esta informação –para ser eficiente, operante– deverá ter a capacidade de pertencer em determinada medida tanto ao domínio da imagem-propósito como ao dos materiais, sem ser ela nem um nem outro completo. Porque “tudo” não é informação transmissível, é a coisa mesma!

É necessário, portanto, para construir a informação, selecionar certos aspectos –os mais eminentes, os mais determinantes, os mais eficazes– em vistas à ação construtiva que pretendemos levar a cabo.

A este processo seletivo segundo um ponto de vista chamamos abstrair (abstrair: trazer separado).

Traços

Em nosso caso, se trata de transmitir formas. Tomando como exemplo o desenho figurativo em quanto se ocupa de representar bidimensionalmente a forma de corpos materiais, vamos denominar Traços aquelas partes determinantes da forma que convém abstrair em vistas à exteriorização do propósito formal.

Então, podemos dizer que o processo construtivo formal consiste em transmitir a materiais formalmente capazes, uma informação que consta de Traços abstraídos do propósito formal.

E se expressamos este “transmitir” sob a palavra mais ativa e própria dos materiais: “imprimir” (im-primir, im-pressionar: pressionar para dentro), podemos definir a construção formal como:

O processo de impressão nos materiais eleitos, dos traços formais abstraídos da imagem-propósito.

O Meio Impressor

Com relação a essa dualidade difícil de conciliar:

‘Imagem abstrata’ (geral) vs. ‘matéria concreta’ (particular) avançamos com a introdução do que denominamos traço, por quanto este vem a constituir um elemento em certa medida comum a ambos os domínios.

No entanto, ainda não aclaramos como este traço se materializa, se “encarna” realmente, na coisa que estamos construindo.

Para que isto aconteça é necessário que o traço se introduza ou se verta num meio impressor. Esse meio, por sua vez, acionando o material em sua capacidade formal, se aproveitando dela, transmite o traço deixando-o “impresso” no material.

Esta reunião ou aparelhamento eficiente do material construtivo e o meio impressor leva consigo, obviamente, a aplicação de determinadas forças ou energias transformadoras.

Desde logo destacamos que, tanto o material, como o meio impressor, como a energia, abarcam um amplíssimo leque de tipos e características, variável segundo os processos e formas construtivas de que se trate.

Nosso Corpo, Único Tradutor

Ao introduzir a ideia de meio impressor, todavia não respondemos cabalmente à encruzilhada em que nos coloca a relação: imagem mental-matéria particular; já que não explicamos como os traços formais se introduzem no meio impressor.

Tomemos como exemplos dois casos de construção bem diferentes: a construção de um paralelepípedo de madeira, e a de um cone de areia seca.

Dissemos que para que tenha lugar um fato construtivo é necessário introduzir o material conformável num meio impressor (portador dos traços formais).

No primeiro caso vamos dizer, esquematicamente, que o meio impressor é uma serra circular em movimento através da qual se passa o tronco em determinado ângulo, n vezes; a madeira, adequando suas fibras e propriedades “naturais” a este meio impressor, irá se dispondo na ordem formal desejada.

Nesta serra de mesa –dissemos– devem estar contidos os traços formais; certos traços e não outros, atendido nosso propósito formal e o material empregado.

No segundo caso diremos que o meio impressor é fundamentalmente uma superfície onde se assentará o novo corpo, e um funil com seu bico, através do qual passa certa quantidade de areia seca em condições climáticas dadas. A areia, seguindo seu “talude natural”, irá se dispondo na forma cônica que havíamos proposto.

Mas como e por que foram introduzidos no meio impressor os traços adequados? Como se conceberam tais instrumentos?

Se seguimos este caminho para trás chegaremos à conclusão que a seleção de traços e seu traspasso originário e primeiro àqueles corpos que depois serão empregados como ferramentas ou meio impressor, foram realizados diretamente pelo corpo humano. Quero dizer que o que nossa mente concebeu, se introduziu na matéria exterior e saiu à luz por primeira vez a través de nosso corpo e seus membros. Todo o processo de tradução do mundo das generalizações ao mundo das particularizações tem lugar em nosso corpo.

Essa distância entre margens –aparentemente inconciliáveis– foi salva enfim por nosso corpo inteiro, possuidor de ambas as margens e ponte entre elas. (Desta maneira se leva a cabo um processo inverso ao que se realizou na percepção e formação de imagens).

A Regeneração Material do Objeto

De qualquer modo, o que é muito importante insistir para nosso estudo, seja qual for o modo como originariamente sucedeu esta introdução, é que em cada meio impressor estão contidos certos traços específicos e certa quantidade de energia transformadora.

E estes traços, ao serem traspassados pelo meio impressor ao material possuidor de uma particular capacidade formal, desencadeiam neste uma ação que engendra –melhor dito, regenera– a forma contida na imagem-propósito; imagem que, para os efeitos de nosso estudo, pode provir de um modelo existente que queremos reproduzir ou de um corpo novo que concebemos.

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A MEDIDA NO MUNDO MATERIAL

Dentro do mundo material não tem cabida nem aplicação, em sentido estrito, conceitos válidos no espaço geométrico tais como: igualdade, congruência, semelhança.

Isso se deve a que não existe, nem é possível que exista, um corpo material “idêntico” a outro –pelo menos à escala macroscópica–: não há um diedro igual a outro, uma longitude igual à outra; não há um plano que seja plano nem um cilindro que seja propriamente um cilindro, etc.

Este fato se dá tanto nos corpos naturais como nos corpos produzidos artificialmente.

Temos, então, que os corpos materiais que construímos são só “parecidos” aos propósitos formais (imagens formais) que lhes servem de origem e modelo. Assim como em nossa mente não cabem senão generalizações, no mundo material não há senão particularizações.

Margem de Jogo de Particularidades

Ora, ao construir um artefato devemos acolher necessariamente estas particularidades e, para governá-las, devemos enquadrá-las dentro de certos rangos que nos fixamos previamente de acordo às circunstâncias concretas de cada caso.

A este rango formal de enquadramento denominaremos “Margem de Jogo de Particularidades” ou simplesmente “margem de particularidades” (MJP).

Ordinariamente, a este rango de medidas se chama “tolerância” ou, em outros casos, “margem de erro”; preferimos não usar estes nomes porque, no fundo resultam com um caráter negativo ou pejorativo ao apontar a um gênero de perfeição –uma ilusão– que nada tem a ver com a realidade material de uma construção e que finalmente nos confunde.

A Exatidão Construtivo-Formal

A exatidão em si mesma, entendida como a perfeita correspondência de duas figuras determinadas e invariáveis, não tem sentido ser proposta numa construção material.

No entanto, empregaremos este termo com um sentido especial, nascido justamente de aceitar a condição particular de cada corpo material.

Diremos que a exatidão de um corpo se define pelo modo como o tamanho e a forma de suas superfícies se enquadram dentro da margem de jogo de particularidades estabelecidos pelo propósito formal. Se o enquadramento se produz, diremos que a construção é formalmente exata. Se não se produz, é inexata.

Não cabe, então, falar de grau de exatidão, senão somente de sua existência ou inexistência.

O que fizemos ao considerar a exatidão desde o ponto de vista assinalado, é comparar o corpo construído com um corpo virtual cuja envolvente não é uma figura superficial, senão “uma espessura” determinada pelo MJP. Por exemplo, uma pirca de pedras naturais cujo paramento é construído de acordo a um propósito formal que se enquadra num MJP de 5 cm, é igualmente exato que um eixo de aço que –segundo o propósito formal– se enquadra dentro de um MJP de 0,05 cm em seu diâmetro.

A Precisão

Nos referimos a ela uma vez estabelecido e ressaltado o relativo à exatidão.

Com o termo “precisão” designaremos a amplitude do MJP dentro da qual se inscreve um corpo material. Ao respeito, dizemos que a precisão é inversamente proporcional ao MJP. Isto é, que à menor amplitude desta margem, maior é a precisão construtivo-formal do artefato.

Nesse sentido, o eixo mencionado no exemplo anterior é um corpo formalmente mais preciso que a pirca.

Fatores que incidem no MJP

Ao ser concebido a “margem de jogo de particularidades” dentro da qual se enquadrará o corpo que se quer produzir, se deve ter presente conjuntamente:

a. A homogeneidade da matéria-prima,

b. As características do meio impressor.

Para os efeitos desta análise não consideramos o grau de complexidade formal do corpo, já que damos por suposto uma adequada eleição do meio impressor e do material em função de tal complexidade.

a. Relação MJP-Homogeneidade do Material

A amplitude do MJP está em relação inversa ao grau de homogeneidade, continuidade e regularidade próprias de um material determinado.

Isto é, que à maior homogeneidade do material, menor MJP. Subentende-se que para igual esforço e nível tecnológico do meio impressor.

Por exemplo: se com uma determinada escova e operário se trabalha uma peça de madeira de pinho insigne e outra de raulí, o MJP de esta última peça será menor que na primeira devido a que o raulí é uma madeira mais homogênea que o pinho insigne.

O conceito de homogeneidade que aqui é empregado abarca também aquelas propriedades físicas ou químicas tais como capacidade higroscópica, contrações, dilatações, etc. Por isto, este conceito é cabalmente aplicável também nos casos em que a operação construtiva é realizada por “tradução”.

b. Relação MJP-Características do Meio Impressor

O meio impressor incide de duas maneiras:

- em quanto ao nível de precisão que possui;

- em quanto à “simplicidade” com que opera.

No primeiro caso, resulta claro que, por exemplo, o polimento de uma peça realizado com uma lixa de grão fino conduzirá a um MJP menor que se se faz com uma de grão mais grosso; coisa igual sucederá ao entabuar sobre uma viga acepilhada com relação a fazê-lo sobre uma viga ‘em bruto’.

Em quanto à simplicidade com que opera o meio impressor, se está aludindo às características de sua geometria interna.

Sendo possível gerar uma mesmo formal material por diversos procedimentos, comprovamos que enquanto mais medições primárias (não meras verificações de medidas) seja necessário fazer nas sequências construtivas correspondentes, maior resultará a “margem de jogo de particularidades” que possuirá o corpo construído. Entende-se que dados um nível e esforço tecnológico constantes.

Demos um exemplo:

Construir um círculo com um compasso permite um menor MJP que construí-lo medindo diferentes raios e unindo seus extremos entre si. O compasso opera em base a uma só medida inicial que há que fixar: o raio. No outro caso, as medições são múltiplas.

A afirmação feita se aplica tanto à construção mesma do corpo desejado como à construção do instrumental com que é realizado.

Suponhamos, a título de exemplo, que se produz por extrusão (matriz de figura fechada) uma barra de seção circular e outra de seção quadrada. Tratando-se de um mesmo material e de condições tecnológicas equivalentes, o problema do MJP não é decidido na produção mesmo do perfil, senão que é traspassada à construção das matrizes: uma perfuração cilíndrica e uma paralelepipedal.

Ora, se a construção da matriz cilíndrica é realizada no torno –e portanto, em base a um raio– e a matriz paralelepipedal em base a várias perfurações e cortes, esta última se enquadra num MJP maior que a matriz cilíndrica.

Um caso concluinte que ilustra o que se vem afirmando é o dos “cilindros” de máquinas que operam em base à compressão de gases ou líquidos.

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ACERCA DA MENSAGEM CONSTRUTIVA

Foi dito anteriormente que para que uma porção de material assuma uma determinada forma contida no Propósito Formal, é necessário que dito material seja posto em contato com um meio impressor ad-hoc.

Este contém certos traços particulares de acordo com tal propósito, e a energia necessária para traspassa-los ou imprimi-los na matéria-prima.

O que não foi explicado, em troca, é de que maneira e sob que condições o propósito formal (ou simulação formal) que está na mente do “projetista”, sai ao mundo exterior e chega até encontrar a matéria-prima adequada, encontrar o meio impressor adequado e, ademais reunir os dois.

A ‘mensagem’ em seres orgânicos

No caso de os seres orgânicos, a mensagem genética –portadora das instruções formal e de execução– é uma entidade material de características análogas ao novo corpo que se gerará. Isto é, que os novos elementos materiais que vão se reunindo se ordenam formalmente e automaticamente a partir dos anteriores, sendo a cadeia mesmo da mensagem genética o ponto de partida de tudo o que vem a seguir.

Algo assim como se no caso de um muro de alvenaria, uma vez posta a primeira fiada, o resto dos tijolos fosse se ordenando autônoma e automaticamente, a partir desta fiada inicial, até completar o pano de muro proposto. No caso real do muro, bem sabemos, se faz necessária a presença de condições externas aos elementos materiais que integrarão o muro: o pedreiro com sua destreza, suas ferramentas, suas forças.

Um caso limite:

Tento dilucidar como se exterioriza e materializa o propósito formal, examinemos o caso de um artesão isolado.

No momento de conceber o corpo que almeja construir, dito artesão já possui uma experiência e um conhecimento da matéria-prima que se requere e de suas capacidades para transformá-la (ferramentas, destreza, energia); além disso, sabe em que lugar deseja construir o “edifício” e onde encontrar estes materiais e ferramentas; e sabe também as operações que deve realizar para reuni-los no ponto adequado.

Todo o processo construtivo é concebido e realiza, neste caso, numa pessoa. A informação formal que dá conta do objeto a construir e que o contém abstratamente, flui da cabeça aos próprios membros executores. Não há intermediários.

No entanto, apesar de realizar uma atividade autônoma, não pode deixar de pensar sua futura obra pelo menos em imagens formais. Destas –segundo nossa linguagem– abstrai os traços que definem e caracterizam a forma do objeto. E é segundo tais rasgos que o artesão decidirá acerca das propriedades das ferramentas que empregará e da ordem do trabalho.

Linguagens simbólicas

É muito corrente que embora se trate de um operário isolado e autônomo, parte dos traços que assinalamos se exteriorizem em desenhos de diferentes características segundo os casos e pessoas, em algumas cifras de medidas e em nomes de referência. Isto é, que ainda neste caso bastante extremo, as imagens mentais se voltam ao exterior numa linguagem simbólica e por conseguinte, abstrato.

Desenho

No entanto, se continuamos refletindo, repararemos que certo tipo de “desenho” desta linguagem simbólica –a projeção paralela– passa a se constituir ordinariamente –uma vez transcrito à escala natural (1:1)– nos primeiros passos da construção definitiva do corpo desejado.

A título de exemplo pensemos no “desenho” com giz dos cortes de um edifício; ou o traçado a ponta seca numa peça de metal onde logo será apoiada a lâmina da serra, etc.

Cifras e nomes

Devemos reconhecer isso sim, uma diferença radical entre este tipo de desenho geométrico-figurativo e à escala, e a escritura de nomes e números. O gênero de traços com que estes se apresentam (seja na escritura ou na dicção), não tem nenhuma relação formal com o futuro objeto. No entanto, tais símbolos existem e parecem nos resultar úteis em nossa ação construtiva: isso quer dizer que deve haver uma ponte entre símbolos e obra.

Tomemos o caso dos números que indicam medidas lineares. Vemos que encontram um intermediário que lhes permite entrar em ação construtiva concreta: a régua métrica (trena); aqui a cifra abstrata é constituída num ente material. Se se tratasse de medidas angulares, o intermediário seria, por exemplo, o transferidor ou o taquímetro, e assim sucessivamente.

E as palavras? Em primeiro lugar, podem falar de propriedades da forma; então elas devem encontrar alguma ferramenta ou instrumento construtivo ou procedimento que permite seu “ingresso” na edificação mesma. Por exemplo, o termo “acepilhado” especifica um tipo de superfície obtida com o cepilho. O termo “horizontal” encontra sua tradução no nível: o “reto” na régua, ou o “estuque a grão perdido” numa modalidade de dispor o morteiro, etc.

Outras vezes podem indicar a sequência das operações: primeiro isto, logo isto outro. Ou bem, podem identificar cada tipo de matéria-prima.

Porém, seja que se trate de desenhos figurativos, de números ou de palavras abstratas, sempre deverá estar presente um “intérprete” que seja capaz de trasladar tais abstrações a elementos materiais construtivos.

Recapitulando: ainda no caso de um artesão solitário, autor e executor de um corpo material, existe em sua mente a abstração de traços formais de dito corpo, que se traduzem numa linguagem simbólica de figuras, de números ou outros signos, e de palavras.

Toda esta linguagem se introduz no processo construtivo mesmo, se traduzindo por sua vez em diferentes elementos e propriedades do meio impressor, para logo se gravar em materiais formalmente capazes.

A ‘mensagem’ construtiva

É importante insistir que em tais traços, desenhos, signos e palavras está contida a informação específica e eficaz do corpo que se propõe edificar.

É uma sorte de “mensagem genético” da obra. Nele está necessariamente, embora de maneira “simbólica”, ‘todo’ o corpo.

Sua eficácia em quanto mensagem depende da justeza com que seja possível ser interpretada por um meio impressor, incluídos, desde logo, a inteligência e as destrezas dos operários.

O meio impressor, dentro de si, pode ter muito diferentes graus e modalidades de interpretar a informação recebida. Depende do tipo de operação, do desenvolvimento tecnológico, do grau de especialização dos operários que, dito seja de passagem, nunca podem faltar como primeiro nível de interpretação do meio impressor. Às vezes, como no caso do artesão, uma mesma pessoa pode se desdobrar em informante e executor.

É assim como a informação pode ser traduzida pelo operário e aplicada diretamente através de seus braços, ou bem, no outro extremo, se reduzir a pressionar o botão de uma ferramenta automática. Naturalmente neste último caso, a máquina ferramenta terá programada uma sequência interior de dispositivos e mecanismos que acionarão finalmente as matrizes executoras no lugar e condições precisas.

Construção massiva atual

Tudo o que viemos exemplificando num artesão ou operário, se aplica em outros processos construtivos em que muitas pessoas formam parte do meio impressor.

Nestes casos, e à medida que aumenta o número de pessoas implicadas e a complexidade da obra, aumenta progressivamente e até limites enormes, a magnitude e o caráter simbólico da informação construtiva.

É assim como as obras por construir se dividem e subdividem em partes que se encarnam em infinidade de mensagens simbólicas, as que são decifradas por diferentes intérpretes –homens ou máquinas– em distintos momentos do processo, e traduzidos a inumeráveis operações construtivas até que a nova obra fica concluída com a “exatidão” prevista.

Evidentemente isto só pode suceder se toda a informação está regulada e coordenada no tempo e no espaço, de sorte de não se interferirem umas interpretações com as outras. Isso implica também que as linguagens simbólicas que são empregadas sejam coerentes entre si, e suficientemente convencionais (convindos) para que as pessoas e equipes que formam parte do meio impressor e do aprovisionamento de materiais construtivos possam operar eficazmente.

Isto implica, desde o ponto de vista formal, a permanente busca da normalização das unidades de medidas, dos controles de qualidade, dos nomes e nomenclaturas, etc.

Além disso, explica a difusão crescente das características dos materiais e dos elementos ou meios impressores através de sistemas de catálogos.

* Nota do tradutor: por extensão, a terceira das quatro partes do livro não foi incluída nesta tradução.

Referência:
Fabio Cruz P., Construcción Formal, Ediciones Universitárias de Valparaíso, Pontificia Universidad Católica de Valparaíso, 2003, pp.9-22 e 55-60.

Primeira edição em português. © Tradução: Igor Fracalossi.

Sobre este autor
Igor Fracalossi
Autor
Cita: Igor Fracalossi. "Construção Formal / Fabio Cruz" 20 Mar 2014. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/174669/construcao-formal-slash-fabio-cruz> ISSN 0719-8906