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Réquiem pelas escadas / Oscar Tusquets

Réquiem pelas escadas / Oscar Tusquets
Réquiem pelas escadas / Oscar Tusquets, Ópera Garnier de Paris. Image © Flickr Mari Wirta (CC AT NC ND)
Ópera Garnier de Paris. Image © Flickr Mari Wirta (CC AT NC ND)

Surpreendentemente, naquela aula Josep Maria Sostres esteve magistral. Josep Maria Sostres, que a partir de agora chamaremos Sostres (ainda que na universidade o chamássemos El Sostres), era um arquiteto e um homem muito, muito peculiar. Como arquiteto, mereceu o típico reconhecimento post mortem, da mesma maneira que José Antonio Coderch, outro arquiteto que poucos de nós admiraram em vida, embora, hoje, pareça que todos o idolatrassem.

Realmente, Coderch e Sostres podiam ser comparados, e essa comparação foi muito impactante naquele momento. Ambos contaram com um reduzidíssimo grupo de lãs incondicionais que louvavam, nos dois artistas, virtudes totalmente antiéticas. Em Coderch admirávamos –e eu pertencia ao seu grupo– o caráter intransigente e individualista, sua aparente independência em relação às escolas internacionais, sua aversão a integrar-se a grupos de opinião, seu ar de artista isolado, como o protagonista de El Manantial, reforçado por uma aparência física adequada ao papel: um tipo elegante, enxuto, hispano, velazquiano, com um olhar penetrante e inquisidor. Em Sostres, valorizam-se sua tremenda erudição, seu conhecimento das tendências internacionais mais vanguardistas, seu sofisticado ecletismo, seu compromisso e integração em tarefas culturais coletivas, tudo isso acompanhado, também, de uma aparência igualmente coerente: era tão feio quanto Jean Paul Sartre, desalinhado, mal vestido, tinha caspas e usava uns óculos redondos e grossos como fundos de garrafas.

Mesmo que a herança de Sostres ainda me pareça muito inferior à de Coderch, é verdade que ele nos deixou algum edifício refinado e interessante que, por si só, justificaria seu mérito póstumo. Contudo, no que diz respeito à sua atividade pedagógica, essa valorização só pode ser explicada ou pela amnésia voluntária de alguns de seus antigos alunos ou pelo desconhecimento dos mais jovens.

Sostres pode ter sido um arquiteto interessante, um homem culto e pitoresco, mas era um professor preguiçoso e acomodado.

Lembro perfeitamente da minha primeira aula na escola de arquitetura. Era o ano de 1959 quando, finalmente, ingressamos na tão sonhada universidade, depois de seis anos de bacharelado, do pré-universitário e mais dois científicos: se todos passamos de primeira, haviam transcorrido então nove intermináveis anos até que, finalmente, nos falassem da matéria que havíamos escolhido desde a infância.

Eu entrei na escola de arquitetura com sincera devoção artística. A escola se encontrava no alto da Universidade Central de Barcelona, um digno edifício românico de Elies Rogent, que abrigava também outros cursos, entre eles o de letras. A dignidade do espaço e a convivência com estudantes de outros cursos criavam um ambiente universitário em nada depreciável.

As decepções chegariam mais tarde, contudo, o primeiro dia se mostrara memorável. Numa sala pequena, mas capaz de acolher todos os alunos da matéria, apenas uns trinta, de cujas paredes pendiam reproduções de arte clássica e que podia ser escurecida com cortinas para a projeção de transparências, tivemos nossa primeira aula: era de história da arte, e era Sostres quem lecionava. Lembro-me de que, com ar desanimado e sem o menor indício de entusiasmo ou paixão, o decano foi fazendo uma sonolenta descrição da arte rupestre, da idade da pedra talhada e da pedra polida, da idade dos metais... Tudo isso ilustrado com umas lamentáveis –deviam ser contemporâneas das obras que reproduziam– transparências em preto e branco.

Naquele ano, Sostres deu-nos uma matéria completa de história da arte e, no ano seguinte, outra completa de história da arquitetura. Ao longo de todo esse tempo, evidenciaram-se tanto o seu conhecimento e usou preparação quanto o seu conformismo e sua ausência da menor ambição que não fosse cumprir com o expediente.

Mas, um dia, no final do segundo ano, em que havia melhorado alguma coisa, pois, ao chegar na arquitetura mais ou menos moderna, ele mostrou-se mais interessado e desenvolveu, diante de nosso estupor, uma aula magistral. Sem que viesse ao caso, nem figurasse no programa, nem sequer correspondesse à época que estávamos tratando, o mestre irrompeu em uma dissertação –não sei se pessoal, mas brilhantíssima– a respeito do que significou, para a história da arquitetura e da humanidade, o descobrimento e a construção de planos horizontais. Nos fez ver como o plano horizontal foi uma invenção da criatividade humana, pois, na natureza, rarissimamente se encontra essa geometria, apenas na água em repouso e não se pode sobre ela –exceto nas Escrituras Sagradas– caminhar. Fez-nos imaginar como o homem, liberado do aborrecimento de caminhar atento aos acidentes do terreno, pôde começar a andar despreocupado enquanto pensava e, assim, interessar-se pelos questionamentos abstratos que o levaram à filosofia. Com ele descobrimos, até o fim da aula, que se construir planos para o deslocamento horizontal não era algo óbvio e, sim, requeria um ato criativo, imaginar a sucessão de planos horizontais em diferentes níveis para se locomover nas três dimensões, ou construir escadas, foi, então, um marco arquitetônico e cultural de primeira magnitude. Lembro-me de que a aula foi tão brilhante e surpreendente que, ao terminar, nós nos pusemos de acordo mediante sinais e, quando Sostres terminou, irrompemos em um estrondoso aplauso que deixou o mestre atônito, sem saber se seria uma felicitação sincera ou uma pura gozação estudantil. Ruborizado, recolheu tropegamente suas tralhas e desapareceu correndo. Ele nunca mais se arriscou a uma experiência tão traumática como aquela.

Mas, Sostres tinha razão. A escada é uma invenção fabulosa: bastam alguns degraus talhados num terreno íngreme (pelo qual antes subíamos penosamente) para nos convencer disso. A escada é, também, uma peça arquitetônica fascinante, ao mesmo tempo em que é de dificílima execução; talvez o elemento que tenha gerado os espaços mais memoráveis da história de nossa arte. O conflito geométrico que gera a linha diagonal do corrimão em relação ao piso, o desenho sempre delicado e complexo do guarda-corpo, as mudanças de direção, os patamares intermediários, a solução particular que o arremate no nível superior exige, a solução ainda mais difícil (quase impossível, pois, de fato, muitas das mais belas escadas não resistem à visão inferior de seu primeiro lance) do arranque, ou seja, onde os degraus deixam de se apoiar no chão para alçar seu atrevido voo... de todos estes desafios os arquitetos padeceram e desfrutaram ao longo da história. No entanto, talvez não venham mais a fazê-lo se, como presumo, a escada for um elemento arquitetônico em extinção.

Em extinção porque, em nossos dias, a escada deixou de ser um pezzo di bravura do arquiteto para converter-se em um espaço de serviço, puramente funcional, marginal, isolado e quase padronizado. Isto acontece por três razões fundamentais: a popularização do elevador, a rigidez das normas contra incêndios e a proliferação das rampas como solução alternativa.

O elevador foi uma grande invenção; sem ele não teria sido possível o surgimento dos arranha-céus, e basta termos que subir com nossa bagagem pela íngreme escada que leva ao sótão para onde nosso amigo boêmio de Paris nos convidou, para que eliminemos qualquer dúvida sobre a contribuição deste aparato à qualidade de vida cotidiana. A aparente comodidade do elevador relegou a escada a um papel puramente alternativo para casos de manutenção ou acidente. A escada ficou tão marginalizada e tão pouco atrativa que não é usada nem para descer um ou dois andares. Ao visitar qualquer edifício hospitalar ou administrativo, é possível observar os empregados que esperaram o elevador durante vários minutos, estupida e sistematicamente, para descer um ou dois andares. Parece que subir e descer escadas é um exercício saudável e conveniente para a circulação sanguínea, mas que as pessoas rejeitam; contudo, quando a escada é bela, não deixa de constituir uma lúdica experiência espacial.

Ninguém mais –sobretudo os americanos– quer subir escadas; por isso, nas deprimentes salas de musculação das academias de ginástica, entre outros complexos e sinistros aparatos, surgiu uma máquina para obrigá-los a realizar exatamente o mesmo exercício que fariam subindo escadas. Ou seja: sobem para a academia esperando impacientes o elevador e, uma vez lá, começam a subir escadas virtuais numa máquina.

Parece que os redatores de normas contra incêndios não compartilham o amor dos arquitetos pelas escadas. É inegável que, em caso de incêndio, o seu vão pode atuar como chaminé e transmitir o fogo e a fumaça aos andares superiores, o que a deixaria, além do mais, inutilizada como via de evacuação. Mas, esse perigo indiscutível levou a uma regulamentação que penaliza a escada de forma grosseira. Ela, como via de acesso, não pode, todavia, abrir-se a nenhum espaço habitável, tem que ser totalmente independente, isolada do fogo, acessível somente por portas de fechamento automático (normalmente de força titânica) e, em muitos casos, essas portas devem ser duplas. Além disso, para muitos usos, são proibidos no desenho da escada os percursos curvos, os degraus de dimensões progressivas, os degraus em balanço etc. Ou seja, segundo os legisladores, uma escada como a da Ópera Garnier de Paris, que infringe quase todas as normas, é altamente perigosa e, em caso de evacuação, poderia causar múltiplos problemas. Não é estranho que sob esta crescente pressão, esgotados numa luta estéril em defesa de projetos alternativos, nós, arquitetos, nos desmoralizemos moldando-nos às soluções que merecem todos os cumprimentos e não implicam nenhum risco legal? Resta-nos recorrer à escada enclausurada de superfície mínima, de traçado reto, de degraus iguais e ortogonais; a batida escada padronizada e universal, idêntica aqui e em Seul, econômica e segura, mas também trivial por ser ordinária. Deixamos de considerá-las como o coração do edifício e passamos a projetá-las como uma casa de máquinas.

Fica a questão da rampa como alternativa à escada. Na arquitetura antiga, esta substituição só acontecia em poucas ocasiões: longas rampas externas como as de acesso aos templos egípcios de Deir el Bahari, rampas interiores de vários lances, como a de Giralda de Sevilha, ou rampas helicoidais para a passagem de cavalarias como a de Bramante no Vaticano ou a inteligente rampa dupla que Sangallo construiu em Orvieto para impedir que os animais se esbarrassem ao extrair água de um poço.

As rampas internas eram exceção. A rampa é um tema arquitetônico muito difícil de ser encaixado. Em qualquer garagem podemos apreciar os conflitos geométricos que ela provoca, e mesmo os projetistas de pontes as temem.

No entanto, na arquitetura contemporânea, as rampas proliferam. Creio que essa moda nasceu do fascínio que as formas geradas pela circulação de veículos e pela velocidade provocaram nos artistas das vanguardas históricas: construtivismo soviético, futurismo italiano, racionalismo da Europa Central. Essas formas puderam integrar-se com certa naturalidade e sem maiores consequências à uma fábrica de automóveis em Turim, a um tanque para pinguins em Londres ou a um museu helicoidal em Nova York, mas a sua introdução em espaços cotidianos e domésticos é sempre forçada e gratuita. A célebre promenade architecturale, outro termo deselegante de Le Corbusier, não pode ser experimentada ao subir por uma escada? É lógico que no Museu de Arte Contemporânea de Barcelona, uma parte importantíssima de seu espaço, a que é mais bem iluminada, esteja exclusivamente dedicada a um jogo de longas rampas que nos levam em um incansável ziguezague aos andares superiores?

Pode-se argumentar que as rampas permitem eliminar a barreira arquitetônica que a escada representa, mas as rampas das quais estamos falando são longas demais ou íngremes demais para serem utilizadas por deficientes físicos. A norma exige rampas diretas e curtas, rampas que substituam uma escada de poucos degraus, mas que, de maneira alguma, possam ser uma alternativa razoável para uma escada que vença vários metros de desnível. A alternativa sensata a uma escada assim é um elevador de tamanho suficiente para levar uma cadeira de rodas.

Por tudo que foi exposto, sou pessimista em relação ao futuro da escada como nobre tema arquitetônico. E esta previsão me entristece porque, ao longo da minha vida, eu desfrutei muito de algumas escadas.

Fonte:
Revista Noz no. 4, pp.14-18.

Cita: Igor Fracalossi. "Réquiem pelas escadas / Oscar Tusquets" 20 Nov 2013. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/154685/requiem-pelas-escadas-slash-oscar-tusquets> ISSN 0719-8906