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Urbanidade

Urbanidade
Urbanidade, © Flickr Javã Társis. Used under <a href='https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0/'>Creative Commons</a>
© Flickr Javã Társis. Used under Creative Commons

Pare de falar mal de sua cidade. Coisas ruins sempre vão existir. Excrementos sempre serão tirados em algum lugar. Falar mal dos excrementos faz com que o seu odor alcance distâncias inimagináveis. Pratique a indiferença urbana. Coisas sobre as quais ninguém fala, não serão lembradas, e logo não existirão. Como, por exemplo, o número 168 da Rua dos Ararius, que existe a partir de agora. Pare de falar. Proponha soluções. A crítica é sempre criativa e propositiva. A palavrearia é apenas opinião sentimental. Fizeram algo ruim? Mostre o que seria melhor. Coração quente, mente fria. Não espere por nada. Está querendo que te pague pela ideia? Já sei que não podemos contar com você. Faça o que você acha que é o melhor. A autocrítica é uma crítica universal. O melhor é sempre o melhor primeiro para você. Se é verdadeiramente o melhor pra você será o melhor para os outros. Seja verdadeiro e tenha confiança. Respeite e cultive a cidade. Ela é nossa mãe. Não deixamos que falem coisa alguma, mentiras ou verdades, sobre nossa mãe. Defendam-na. Jamais riam dos seus defeitos. Rir da cidade é rir de nós mesmos.

Lute por abandonar a hipocrisia. Não existem soluções a longo prazo. Não aqui, não agora. Isso é uma invenção dos que se dizem «políticos». Os políticos de fato são e devem ser nós mesmos. Vereadores, deputados, senadores, etc., são servidores públicos. Servem ao público e ao que é público. Devem servir. Se não servem, devemos fazer com que sirvam ou encontrar outros que sirvam. Mas a melhor solução é sempre esta: não espere que alguém te sirva, sirva-se a você mesmo. Faça. O longo prazo implica o surgimento de novos problemas, e outras soluções para eles. As soluções atuais para as cidades brasileiras são e devem ser drásticas.

Precisamos de estacionamentos? Não. Desejamos estacionamentos. (porque temos carros) Mas o que precisamos de fato é não precisar de carros. E como não precisar de carros? Fazendo com que seja impossível andar de carro. Fechando avenidas, estacionamentos e postos de gasolina. Lembre-se motorista: você não está num engarrafamento, você é o engarrafamento. A preferência de circulação é sempre do pedestre sobre os automóveis. Sempre. O pedestre não cruza a rua, o carro é quem cruza a calçada. Alargue as calçadas. Precisamos caminhar. Não temos espaço? Temos de sobra: a rua é espaço. Diminua as ruas e aumente as calçadas. Aumente os passeios. Aumente os jardins. Amplie as ciclovias. Que cresçam as árvores. Talvez chegue o dia em que teremos só calçadas. O carro pedirá com licença para atravessar nossa calçada (sem buzinar). É cômodo andar de carro? Não. Cômodo é andar a pé, na sombra, com brisa no rosto, ouvindo música e tomando sorvete.

Árvores não são sinônimos nem implicam insegurança. O que implica insegurança são iluminação e visibilidade inadequadas. Já reparou que a iluminação pública é uma iluminação para as ruas e para os carros? A iluminação das calçadas e para os pedestres é urgente. Iluminação e arborização são parceiras. A árvore está comprometendo a fiação aérea? Refaça a fiação. Ela se adequa ao crescimento das árvores. (ou enterre-a de vez) E por favor: jamais derrube as árvores das nossas calçadas, praças, parques, e até aquelas que ficam no meio da rua. Essas são as melhores: um canteiro central natural sem canteiro, onde podemos subir a jogar coisas nos carros que passam. Árvores são sinônimos de sombra. Sombra é sinônimo de bem-estar e qualidade do ambiente. Não há espaço para árvores? Invente alternativas: marquises, toldos, bandeirinhas, roupa estendida... As soluções mais arcaicas são as mais originais. Que cidade linda seria essa.

Nem tudo na cidade tem que ter importância. Na verdade, poucas coisas devem sobressair: somente aquelas que representam e reforçam nossa história e caráter. Uma cidade onde tudo se destaca é um circo de rua. Por exemplo: edifícios residenciais devem ser o pano de fundo da cidade, devem formar um conjunto homogêneo que ressalte a vida urbana. Contente-se arquiteto com este fato: arquitetura residencial está no interior do lar, no ato de habitar. Nada de fachadas esquisitas, calçadas coloridas, gradis extravagantes, portarias monumentais. Os ingredientes são básicos: arborização alta e densa para sombreamento, faixas de arbustos e gramíneas, pavimentação funcional e resistente, e iluminação de baixa altura para pedestres. O importante é: como as diferentes soluções e fatos urbanos se relacionam. A cidade deve integrar e incentivar o diálogo entre as diferenças. A cidade deve abrigar tanto os pedestres quantos os automóveis, e também os bondes, as bicicletas, os ônibus, os metrôs, os skates. Deve dar lugar tanto ao botequim e à mercearia, quanto ao centro comercial. Deve ser terra tanto para torres de incontáveis andares quanto para casinhas geminadas de meia-água. A beleza da cidade está em sua singular diversidade.

Sobre este autor
Igor Fracalossi
Autor
Cita: Igor Fracalossi. "Urbanidade" 08 Ago 2013. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/133428/urbanidade> ISSN 0719-8906