Reestruturação das Instalações do Cabido / Carlos Castanheira + Clara Bastai

Reestruturação das Instalações do Cabido / Carlos Castanheira + Clara Bastai

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  • Colaboração:Pedro Carvalho, Eliana Sousa, João Figueiredo, Fernanda Sá, Rita Saturnino
  • Projeto De Estabilidade:Paulo Fidalgo, Eng. Civil, HDP Gabinete Projectos. Engenharia Civil, Lda.
  • Projeto De Instalações:Eng. Pedro Nunes, Diametro & Cálculo Eng. Ldª
  • Data:2008 - 2015
  • Cidade:Porto
  • País:Portugal
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© Fernando Guerra | FG+SG
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Com o SAGRADO …. não se brinca.
Ouvi dizer, e é verdade.
Julguei que conhecia a Sé Catedral do Porto. No primeiro ano de arquitectura fomos até lá para desenhar. Por fora, por dentro. O pior foi o Claustro, cheio de geometria, imensas perspectivas. Nada que se compare com o Claustro do Mosteiro da Serra do Pilar, redondo, de perspectivas impossíveis, também tarefa de Escola.

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Planta - Primeiro pavimento
Planta - Primeiro pavimento
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Serviu-nos para pegar no gosto pelo desenho. Gosto e necessidade. O desenho é sempre uma bengala de apoio para as ideias, teste das mesmas e, tantas vezes, experiência de recusa. Um dos professores era o Grade, o Zé Grade, que morava e ainda mora ali, na casa mais antiga do Porto, pelo menos a fachada, no Beco dos Redemoinhos. Foi também ali que recebemos a má notícia de um colega nosso. Ficou sempre na memória, pelo menos na minha. Voltei outras vezes, aos sábados, à Feira de Vandoma, como turista ou a acompanhar turistas, e a visitar a Casa dos Vinte e Quatro, do Fernando Távora, também professor nesse ano. Nunca mais para desenhar. Pena, porque o sítio merece.

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Quando o Cabido da Sé me chamou, entrei pela porta principal, camuflada, em obras de restauro. Absorvi a escuridão e luz da Nave, passei ao Claustro, visitei Capelas, entrei na Sacristia: a grandiosidade, os arcazes, os frescos esbatidos, a luz. A passadeira vermelha, desnecessária. Que me querem? Receoso. Abriu-se uma porta e, sem sair da Sé, passamos a outro mundo. Um mundo que me pareceu rural, mas rural de má qualidade, decrépito.

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Entre o volume da Igreja, da Sacristia, Beco dos Redemoinhos, Museu Guerra Junqueiro e Edifício do Coro, existe outro mundo. Um mundo de várias construções, de sucessivas reconstruções e a forte presença das obras de recuperação dos Edifícios e Monumentos Nacionais, iniciadas em 1927 pelo Estado Novo e concluídas em 1939. Foi Sacristia, a velha, pátio. Foi Tesouro da Sé e já não é. É Claustra Velha, que é mais recente que o Claustro e de velha ganhou o nome. Os espaços são labirínticos, caóticos, cheios, desarrumados, improvisados. São apoio e armazém das mais incríveis coisas. Coisas boas, de séculos, com plásticos obsoletos, desenquadrados.

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Depois de deambular por ali, perdido, subi por uma escada bichada de tempo, por detrás ao órgão. Dali ao varandim, de guarda pequena para acentuar a escala, aos frescos do Nicolau, o Nasoni. Malandro que, sem que vissem, grafitou nome e dizeres, marcando território. A vista é magnífica, inesperada. Subi ao Tesouro, andei pela cobertura do Claustro, trepei à cobertura da Sacristia para ver melhor e tentar perceber. As dificuldades multiplicam-se. Afinal não conhecia a Sé. O Cabido, responsável pela gestão da Sé, perdeu os seus espaços para as instalações do Tesouro, projecto de Fernando Távora, e para os percursos dos visitantes. As exigências de um edifício como a Sé Catedral do Porto, hoje, vão para além do culto religioso. Há as vistas, os turistas, os grupos de turistas, as actividades culturais e outras coisas.

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O apoio, ou logística como agora se diz, a tudo isto ou é inexistente ou existe na confusão dos espaços escondidos por detrás daquela porta da Sacristia. O que me pedem é para resolver estas questões:
- espaço administrativo para a direcção do Cabido;
- espaço de reunião para todos os membros do Cabido;
- espaço para os funcionários e guardas;
- espaço para as actividades de limpeza, manutenção e tratamento de roupas, objectos e decoração;
- sanitários de apoio.

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O espaço de intervenção limita-se aos espaços degradados. Felizmente. Simples, mas de enorme dificuldade. Falámos com os responsáveis do Instituto que tutela o monumento, com a arquitecta Angela Melo, técnica apaixonada por aquelas paredes, sempre presente. Falámos com quem ali trabalha, com quem ali vive. Falámos com arqueólogos. Lemos o que está disponível. Fomos, e continuamos a ir lá várias vezes, verificar medidas, completar a reportagem fotográfica. Verificar ideias, abandonar outras. Desenhar. Desenhar na Sé depois de mais de trinta anos. A opção proposta foi de limpar o que estava a mais, o que não tinha qualidade, e de manter as paredes que estão bem e usá-las como suporte. Mas há também o que não se vê. A arqueologia e a antropologia. Foram feitas escavações no pátio de São Verissímo e encontradas ossadas. Coisa comum, pois era hábito usar o terreno à volta das igrejas como cemitério. Também foram encontrados restos de fundações e antigas construções. Histórias da História.

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Propomos construir sem esburacar, sem tocar no passado enterrado, que já foi estudado e perspectivado.
Propomos o acesso pela porta do Tesouro, onde se manterão os óleos sagrados e serão instalados os armários individuais dos membros do Cabido. A Sacristia Velha será armazém, contentor de qualidade, de peças e colecções oferecidas, ainda guardadas e escondidas dos olhos do público. Contíguos ao pátio, substituindo o volume existente, serão criados espaços para manutenção, limpeza e tratamento de roupas e decoração. Uma escada permitirá o acesso ao piso superior. As circulações pretendem-se fluidas: da Sacristia para as áreas de apoio técnicas e destas para o Altar-Mor. Do espaço da Sacristia Velha para a Catedral ou para a Claustra Velha.

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No piso superior, em dois níveis, o espaço para descanso dos funcionários e os sanitários. Um pouco mais em cima a área administrativa do Cabido com a sala de reuniões, a sul, mirando a Serra do Pilar. A estrutura será mista de metal e madeira. O metal ficará escondido, a madeira à vista. Tudo aparafusado, para fácil montagem e futura desmontagem se o tempo e a História assim o exigirem. O revestimento exterior será em madeira, levantada do chão, levitando do espaço dos mortos, respeitando preexistências, mantendo-as sem as desenterrar. Fenestrações, somente as necessárias e em diálogo com as existentes. Como na obra de Fernando Távora, ali ao lado, a cobertura será plana e as impermeabilizações serão em chapa de zinco.

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Planta - Segundo pavimento
Planta - Segundo pavimento
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As áreas que se pretende construir, apesar de serem áreas complementares, não serão de menor importância. O que se mantiver dos interiores retomará a dignidade de outrora. Os novos espaços, usufruindo das preexistências e do uso das estruturas, pisos e tectos em madeira, aproximar-se-ão da qualidade construtiva e do ambiente existentes. Numa relação óbvia com a intervenção de agora, propomos percursos, circuitos de serviço, circuitos turísticos, ocupação de espaços interiores e exteriores, em especial da Claustra Velha e seus acessos. Mas isso será para mais tarde. A Sé abre-se ao público e à cultura segundo uma lógica de aproximação e serviço. Necessária e inevitavelmente, este terá de ser um processo cultural.

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Localização do Projeto

Endereço:Sé do Porto, Oporto, Portugal

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Sobre este escritório
Cita: "Reestruturação das Instalações do Cabido / Carlos Castanheira + Clara Bastai" 03 Ago 2020. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/944892/reestruturacao-das-instalacoes-do-cabido-carlos-castanheira-plus-clara-bastai> ISSN 0719-8906

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