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Cinema e Arquitetura: "A Origem"

Cinema e Arquitetura: "A Origem"
Cinema e Arquitetura: "A Origem"

Em “A Origem”, Christopher Nolan nos apresenta como nos seus outros filmes, um bom jogo de linguagem cinematográfica. Procura sempre levá-lo a seus limites e nos dá a sensação de que estamos lendo uma obra literária e não vendo como se desenvolve um roteiro de cinema na telona. Nesse filme, ele utiliza especialmente o conceito de memória, sobre o manipulável e o questionável de sua natureza na nossa vida diária. O objetivo do autor a todo o momento é fazer com que entendamos que a realidade não existe.

Inception ou “A Origem”, é até hoje a obra-prima de um diretor incrível e revolucionário como é Christopher Nolan. Eu mesmo preparei um resumo de sua trajetória, que na minha opinião é impecável, e na de muitos críticos é a carreira de um homem que revolucionou o mundo do cinema com uma proposta nova em tempos onde a criatividade está morrendo, já que, o único que interessa são os lucros.

Se fosse possível encarnar fisicamente a criatividade, seguramente seria num filme deste diretor. E não é para menos esta informação, basta assistir este filme e sentir como a respiração desaparece, como somos absorvidos lentamente pelas cenas. Após assistir a obra, a sensação de que presenciamos algo extraordinário não nos abandonará tão cedo.

Sua principal característica é a ambiguidade que existe entre a realidade e o sonho, mostrando que possuem as mesma características. A realidade, não é nada mais do que aquilo que construímos diariamente através da memória como um processo de fazer legível o mundo que nos rodeia. Buscamos desesperadamente entender o passado para compreender o nosso presente e até mesmo nossa própria mente nos engana, muitas vezes criando uma "realidade" que não existe, conveniente para encontrar um caminho em direção ao futuro e a nossa sobrevivência.

E como nossa "realidade", nossos sonhos são verossímeis dentro da nossa mente, a ponto de muitas vezes não sabermos se estamos acordados. Construímos nossos sonhos a partir das nossas experiências no mundo "real" e os armazenamos dentro da nossa memória. O sonho é o mundo das utopias, onde guardamos nossos desejos e nossas esperanças. Procuramos levar em conta nossas próprias utopias no mundo real e quando as alcançamos, quando conseguimos materializá-las, alimentamos a memória de alguém mais e o processo começa de novo. A utopia de hoje é a realidade de amanhã. 

Para acentuar a sensação de ambiguidade, Nolan utiliza a "Elipsis" como um recurso recorrente na montagem. Enquanto o cinema mais tradicional a utiliza para agilizar a narrativa e deslocar o espectador de um cenário ao outro, aqui resulta ser um recurso com o qual se procura enganar o espectador, não sabemos qual é o mundo real e qual é o sonho. A mesma estrutura do filme é enganosamente circular, pois começa justamente com sua cena final sem que nós soubéssemos seu significado, para logo apresentar um epílogo, o qual se tornou chave na história do cinema e que por muito tempo fez duvidar da verdade natureza do filme. 

Apesar da ambiguidade do filme, o próprio diretor declarou que existe somente uma visão definidora da narrativa. Enquanto existem múltiplas interpretações explorando diferentes pontos de vista e todas elas são intencionais para atrair a atenção do público, a mais óbvia de todas é a verdadeira. A história ocorre tal qual se conta e é sua magnífica narrativa que confere o caráter de obra-prima. Uma vez vista, infecta nossa mente como a mais corrosiva ideia.

ARQUITETURA PARADOXAL

Dentro do filme a arquitetura tem um papel fundamental, tanto para explicar a natureza paradoxal dos sonhos como para maravilhar o espectador com mudanças brutais nas leis da física.

Nesse contexto, a arquitetura paradoxal está baseada na construção de objetos dentro dos sonhos que se assemelham a corpos existentes no mundo real. Se diferenciam em um pequeno ângulo que os tornam mais complexos e confusos. Tais alterações procuram ser sutis para não gerar dúvidas ao sonhador e permitir com que sejam utilizados contra ele. O trabalho do arquiteto é então fundamental, que constrói cenários de sonhos, verdadeiras utopias mediante suas experiências próprias extraídas diretamente da linguagem da realidade. Por sua vez, constrói dentro do sonho, projetos que procura criar na realidade, os quais, uma vez construídos e difundidos, servem de alimento para novas utopias.

Podemos encontrar exemplos de paradoxos sutis nas famosas escadas de Penrose, que proporcionam um percurso infinito para quem caminha sobre elas, Mas também encontramos um exemplo de paradoxo nas ruas labirínticas da cidade de Mombasa, que parecem saídas de uma arquitetura fractal. A mesma realidade aparece cheia de paradoxos urbanos e arquitetônicos, desafiando a lógica da mente e da matemática. 

CENAS CHAVES

1. A Repetição como Espaço Fractal

Para replicar na realidade um espaço onírico, o diretor utiliza a repetição de elementos e a abundância de espelhos, criando a sensação de que o espaço é infinito.

2. O Contraste nos Cenários

O estilo visual de Nolan é caracterizado por um grande contraste de luzes entre seus elementos, e onde a arquitetura não é somente ambientação, mas também um personagem a mais no filme.

3. O Aumento de Velocidade da Realidade

O uso da câmera lenta, que cria um sensacionalismo visual, é utilizado de maneira justificada para mostrar a diferença de velocidades entre o sonho e a realidade.

4. A Capacidade de Sair da "Caixa"

Ariadne é vista por Cobb e demonstra suas habilidades criando um labirinto fora da quadrícula. A própria estrutura do filme procura sair dos convencionalismos do cinema moderno.

5. O Ecletismo na Arquitetura

O filme está repleto de cenários ao redor de todo o mundo, e de arquiteturas de distintas épocas da humanidade que convivem em um mesmo entorno cosmopolita.

6. A Visão Divina do Arquiteto

O filme está cheio de planos aéreos, fazendo o espectador parecer um deus que tudo domina. As ruas labirínticas de Mombasa se assemelham as do próprio sonho.

7. Desfragmentação da Realidade

Cobb treina Ariadne como a arquiteta dos sonhos. Em uma primeira tentativa ela perde o controle, o sonho se torna instável e o cenário se fragmenta em pequenas partes até colapsar.

8. O Desdobramento da Cidade

Em seu instinto de "quebrar" as regras, Ariadne manipula as leis físicas do sonho. Dobra a cidade sobre si mesma e cria uma realidade onde não existe o acima ou abaixo.

Cinema e Arquitetura: "A Origem"

9. O Simbolismo dos Espelhos

Ariadne utiliza grandes espelhos para criar um corredor que atravesse o rio. Ela mesma é um "reflexo" do talento que Cobb já teve e que deixou escapar pela culpa.

10. Arquitetura Paradoxal

Arthur explica como manipular a mente diante de sutis alterações na lógica do sonho. Para isso, é válida a ideia das escadas de Penrose, o exemplo mais citado de paradoxo.

11. Um Inferno dentro dos Sonhos

Dentro dos seus sonhos, Cobb cria uma prisão onde guarda todos os seus momentos de remorso. Como um inferno dantesco, seus maiores pecados se encontram na parte mais inferior.

12. O Poder do Subconsciente

Apesar da perda de suas capacidades, o poder da mente de Cobb se faz presente, quando de maneira inconsciente materializa projeções que buscam arruinar a missão.

13. A Última Fronteira da Mente

Cobb vai até o "limbo" onde o espaço onírico colapsa diante da atividade cerebral. Os edifícios são consumidos pelo "mar" da mente e se desmoronam como se fossem areia na praia.

14. O Mundo das Utopias

Procurando chegar no limite dos sonhos, Cobb desenha uma utopia independente na sua própria mente. Projeta a utopia clássica do modernismo, repleta de arranha-céus e blocos habitacionais.

15. O Sonho de Todo Arquiteto

Cobb desenha a cidade de areia. Destrói um bloco e por trás, um enorme arranha-céu cai. O único limitante para criar a cidade perfeita em sua própria capacidade imaginativa.

16. A Lembranças: Matéria-Prima dos Sonhos

Mallorie e Cobb cobrem a sua utopia de lembranças. Projetam um mundo de fantasia mas seus elementos pertencem ao seu passado. Não existe algo que não tenha sua imagem no mundo real.

17. A Infância: o Refúgio das Fantasias

Mallorie é incapaz de abandonar seus sonhos. Protege seu totem nas memórias da infância, assim como nós guardamos nossos sonhos nas lembranças de criança.

18. A Catarse como Processo Criativo

Cobb sabe que a verdadeira inspiração não pode ser simulada, mas sim que deve originar de um processo mental. Robert caminha por um quatro negro e se encontra com as lembranças do seu passado.

PERFIL DO DIRETOR

Christopher Nolan é um diretor, roteirista e produtor de cinema de nacionalidade inglesa, nascido no dia 30 de julho de 1970 na cidade de Londres. Com 7 anos começou a criar filmes usando uma câmera "Super 8" do seu pai. Estudou Literatura Inglesa na University College de Londres, especificamente por suas instalações para cinematografia e por suas equipe técnica. Ali, tornou-se presidente da Union Film Society e realizou vários projetos.

Depois da sua graduação se dedicou a direção de vídeos corporativos e industriais, enfrentando um período de estagnação profissional, já que seus projetos pessoais eram rejeitados constantemente. Em declarações posteriores, Nolan afirmaria nunca ter recebido apoio da indústria cinematográfica britânica.

Em 1998, dirigiu seu primeiro longa-metragem, "Following", financiado de maneira pessoal e filmado com seus amigos como atores. O filme foi premiado em numerosos festivais e foi considerado por algumas críticas como o Hitchcock moderno.

A partir desse êxito, Nolan decidiu entrar em um projeto mais ambicioso e que havia planejado desde 1997. "Memento" era a história de homem com amnésia, que através das tatuagens e notas deveria encontrar o assassino de sua esposa. O inovador no filme é que a história é contada ao revés e se tornou um sucesso tão grande para crítica que recebeu uma nominação ao Oscar por Melhor Roteiro Original. Para o público se tornou um filme muito conhecido e um dos melhores da década.

Impressionados com o seu trabalho, a Warner Bros contatou Nola para dirigir "Insomnia" em 2002, a qual, mesmo não sendo um filme ruim é talvez o mais convencional na carreira do diretor. Algum tempo depois, em 2003, a companhia pressionou o diretor para que apresentasse um projeto próprio. Até então, ele tinha criado alguns projetos, mas nenhum chegou a concretizar-se. Em vez disso, fascinado pelo personagem de Batman, apresentou a ideia de contar suas origens com um novo foco mais realista. "Batman Begins" foi um grande êxito de bilheteria e inclusive foi nominado ao Oscar de melhor fotografia.

Diante do sucesso comercial, a Warner o pressionou para uma sequência, mas o diretor já possuía um projeto em andamento para 2006. "The Prestige" foi a adaptação de um livro em que magos do século XIX eram rivais. O roteiro esteve a cargo do seu irmão Jonathan e  e representou um dos modelos mais claros em termos de narrativa pós-moderna.

Sem ter uma falha em sua carreira, Nolan continuou com a franquia de Batman. Sua sequência, "The Dark Knight", foi para ele a oportunidade de mostrar a dinâmica de uma grande cidade como Gotham City de uma maneira mais retratista. Em 2008 o filme se tornou um enorme êxito de bilheteria, com grande reconhecimento do público e crítica. Não tardou em converter-se em um dos melhores filmes da década, amplamente citado em numerosos meios especializados.

CHRISTOPHER NOLAN, O ARQUITETO DA NARRATIVA

Não é pouca coisa a ser considerado como um dos novos gigantes da técnica cinematográfica contemporânea. De personalidade complexa, subordina o aspecto visual à complexidade narrativa. Sempre desafia o espectador a questionar a interpretação da obra e a realidade. Sempre trabalha com o elemento surpresa para não deixar o público indiferente e quase sempre consegue fazer com que o espectador continue se questionando sobre as ideias trazidas pelo diretor. Nesse sentido suas obras se aproximam mais a uma obra literária do que ao que o meio está acostumado como cinema.

Suas temáticas procuram entrar na mente humana e suas próprias estruturas narrativas efetuam uma operação semelhante. Suas linhas temporais são fragmentadas, onde sempre reina o desnorteamento e é o espectador que necessita juntar as peças, como se fosse o próprio protagonista da história e o que vê, não são mais do que suas próprias lembranças.

Em todos os seus filmes, podem ser identificados diferentes níveis narrativos, sub-textos e linhas de interpretação que enriquecem o universo e que permitem um "feedback" do público, o qual completa os vazios da história com suas próprias experiências.

FICHA TÉCNICA

Data de Estreia: 8 de Julho 2010
Duração: 148 min.
Gênero: Ficção Científica / Ação
Diretor: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan
Fotografia: Wally Pfister

SINOPSE

Dom Cobb é um habilidoso ladrão, especializado na arte da "extração", o roubo de informação do subconsciente durante o estado de sonho. Essa habilidade o converteu em um agente cobiçado no mundo da espionagem e depois de uma falha na extração, um fugitivo internacional.

De maneira estranha, aparece diante dele a oportunidade de redimir-se através de um último trabalho com o qual poderia recuperar sua vida anterior. Necessita fazer o trabalho perfeito, uma "inserção". No entanto, para isso, ele deve enfrentar um inimigo que parece saber todos os seus movimentos e que se esconde em seu passado traumático.

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Sobre este autor
Cita: Altamirano, Rafael. "Cinema e Arquitetura: "A Origem"" [Cine y Arquitectura: "Inception"] 11 Jul 2014. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/623842/cinema-e-arquitetura-a-origem> ISSN 0719-8906

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