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Memorial da Abolição da Escravatura / Bonder + Wodiczko

Memorial da Abolição da Escravatura / Bonder + Wodiczko
Memorial da Abolição da Escravatura  / Bonder + Wodiczko, © Philippe Ruault / Julian Bonder
© Philippe Ruault / Julian Bonder

Localizado ao longo da margem do rio Loire, no centro da cidade de Nantes, este memorial, projetado por Wodiczko + Bonder, é uma evocação emocional e metafórica da luta pela abolição da escravidão. Com o objetivo de ser algo histórico, o projeto se estabelece no presente e propõe uma transformação física e uma ênfase simbólica dos 350 metros da costa do Loire ao longo do Quai de la Fosse. Este memorial inclui a adaptação de um espaço residual de seu subsolo pré-existente, um produto da construção dos aterros e do porto de Loire durante os séculos XVII, XIX e XX. A construção proporciona espaços e significados para a história da escravidão e do mercado escravo, celebrando a resistência e a luta pela abolição, exaltando o ato histórico contra a prática e colocando o visitante próximo ao processo da luta contínua contra as formas contemporâneas de escravidão.

© Philippe Ruault / Julian Bonder

Ao lançar o olhar sobre as dificuldades passadas e presentes, tanto em Nantes como por todo o mundo, e se colocando como um projeto ético-político, urbano, artístico, paisagístico e, por fim, arquitetônico, este novo espaço público e a nova paisagem urbana esperam se tornar agente e catalisador de mudanças em relação aos direitos humanos, de ativismos e engajamento civil. As ideias articuladoras para este memorial e o trabalho sobre este espaço público em Nantes demandaram o enfrentamento de uma série de questões artísticas, projetuais, arquitetônicas, históricas, éticas e sociais: este projeto pode funcionar em meio às injustiças do presente e do passado, às memórias duras e aos traumas coletivos e, ao mesmo tempo, convidar o público a se engajar na transformação árdua e necessária, no trabalho de cura, pedagógico e re-construtivo? Podemos imaginar isto como um memorial de local específico que, enquanto trabalha sobre os legados da escravidão e do mercado escravo e sobre o movimento abolicionista, enquadra atos coletivos e espontâneos de memória? É possível que um memorial como esse contribua para o vislumbre de um mundo melhor, convidando e incitando seus visitantes a um engajamento ativo, prosseguindo com a luta abolicionista em direção a um mundo livre de escravidão e opressão?

© Philippe Ruault / Julian Bonder

O destino histórico do memorial é preservar a lembrança do passado e proporcionar condições para novas respostas. Como em outros países, os memoriais devem funcionar como um ambiente para se pensar sobre o passado e o presente, promovendo o surgimento de uma nova consciência crítica no espaço público democrático. Memorial, “memento” ou monumento, como “monitor” ou como um guia, sugere não apenas uma celebração, mas também um estado de alerta e de consciência, uma demanda por ação. Tanto comemorativo como de transformação, este projeto é moldado por uma consciência dos desafios e da complexidade presentes que o tema apresenta para gerações futuras. A tentativa é de engajar os visitantes a pesquisar a história através da ausência de sinais diretos, tornando palpável a ideia de se abrir espaços para a busca da memória.

© Philippe Ruault / Julian Bonder

Incorporadas ao solo da cidade estão histórias a serem descobertas e reveladas. Nantes, em particular, é uma cidade que decidiu confrontar seu passado marcante – o primeiro porto de tráfico de escravos na França, com aproximadamente 45% das 4000 expedições do mercado escravo do país. Este projeto implica em um desafio complexo já que demanda o entrelaçamento de diversos segmentos da memória para as novas gerações as quais podem apenas imaginar a situação com certa dificuldade. O projeto está baseado no terreno e na situação da cidade, a qual é “testemunha” da memória. Seu desenho acontece através de dois gestos fundamentais de exposição e de imersão que juntos criam uma experiência literalmente em camadas, por entre as quais os visitantes podem descobrir e interpretar as dimensões de uma história e de um lugar que eles pensavam conhecer.

© Philippe Ruault / Julian Bonder

A transformação deste espaço em um ambiente público demandou uma operação muito complexa para que fosse possível construir um “revestimento” protetor (como uma barragem sob as velhas estruturas) devido às marés do Loire (que varia mais de 4 metros diariamente). Entre a ponte Anne de Bretagne e a passarela Victor Schoelcher, estruturas de vidro foram inseridas, evocando a magnitude do comércio e dos navios de escravos, dispostos no piso “Comemorativo”. A partir da esplanada pública, os visitantes podem acessar a “Passagem”, de ambas as extremidades, chegando a um espaço longo e enclausurado formado pelo muro de arrimo do século XIX e pelas estruturas de concreto dos aterros do século XX. O monumento celebra a grande ruptura da abolição com a presença de placas de vidro inclinadas que emergem em direção à cidade como espadas que cortam o solo. Neste plano de vidro são encontrados textos selecionados de diferentes continentes sobre a escravidão e sobre o tráfico humano do século XVII ao século XXI.

© Philippe Ruault / Julian Bonder

Além de seu propósito simbólico, este memorial será usado como espaço para testemunhos e local de encontro para o fórum bienal de diretos humanos que acontece em Nantes. Isto confirmará apenas a especificidade deste local como um lugar representativo de luta e de memória, lembrando-nos que a abolição que culminou em 1848 não foi em vão e que, talvez, esta luta contra a escravidão, felizmente, um dia não seja mais necessária.

© Philippe Ruault / Julian Bonder

Ficha técnica:

Equipe:

  1. Arquitetos: Wodiczko + Bonder
  2. Arquitetos: Roulleau, Nantes – Michel Roulleau, Jean Marie Beslou

Informação Complementar:

  1. Empreiteiro: Engenheiros Arcadis, Gildas Le Gall, Bruno Vasseur, Francois Bailly; Arquitetos Roulleau, Nantes – Michel Roulleau, Jean Marie Beslou
  2. Construção: Geral: DLE Ouest, Nicholas Boterf; Parede de vidro: Polar, Torino, Paolo Cherasco; Inserções: Atelier Barrois, Brioude, Emmanuel Barrois; Iluminação: Citelum, Nantes;
  3. Paisagismo: ISIS Espaces Vertes, Nantes; Metálica: CMR, St. Nazaire, Nantes
  1. Consultores: Thomas Long (colaboração em projeto e representação); Snehal Intwala, Nicholas Capone, James Shen, Ryan McClain, Bill Panasuik, Emmanuelle Chérel (pesquisa); Patrick Charles (consultor de projeto e de construção); Maximo Rohm, Ron Henderson, Michael Blier, (consultores de paisagismo)
  2. Consultores sobre o vidro: James Carpenter, James Carpenter Design Associates (fase preliminar); RFR Engineurs, Paris – Philippe Bompas & Nicolo Baldassini (desenvolvimento e construção)
  3. Consultores históricos: David Blight, Gilder Lehrman Center em Escravidão, Resistência e Abolição, Yale University; Sven Beckert, Harvard University; Kirk Savage, Pittsburgh University; Vince Brown, Duke University
  4. Prefeitura de Nantes: Jean-Marc Ayrault, ex-deputado e prefeito de Nantes / atual primeiro ministro francês; Yannick Guin, conselheiro municipal; Octave Cestor, conselheiro municipal; Marie-Hélène Jouzeau, diretora do Departamento de Patrimônio e Turismo; Hervé Guégan, chefe de projeto urbano,Nantes Métropole; Jean-Pierre Brindel, diretor de projeto urbano; Aurélie Roger, diretor de projeto urbano.

Sobre este escritório
Cita: Fernanda Britto. "Memorial da Abolição da Escravatura / Bonder + Wodiczko" 20 Ago 2012. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/65801/memorial-da-abolicao-da-escravatura-bonder-mais-wodiczko> ISSN 0719-8906

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