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Como nossas cidades nos mantêm solteiros (e porque isso tem que mudar)

Como nossas cidades nos mantêm solteiros (e porque isso tem que mudar)
Como nossas cidades nos mantêm solteiros (e porque isso tem que mudar), Instalação do BIG em Nova Iorque para o dia dos namorados de 2012. Imagem © Ho Kyung Lee
Instalação do BIG em Nova Iorque para o dia dos namorados de 2012. Imagem © Ho Kyung Lee

Em 1969 o zoólogo Desmond Morris publicou um livro intitulado The Human Zoo; nele, Morris argumenta que seres humanos, tribais por natureza, não são adaptados a viver nas grandes e densas cidades modernas nas quais nos encontramos hoje:

"Algumas pessoas chamam a cidade de 'selva de pedra' - mas selvas não são assim. Animais na selva não sofrem com a superlotação. E superlotação é o problema central da vida na cidade moderna. Se você quer ver animais amontoados, você tem que ir ao zoológico. E então me ocorreu: A cidade não é um selva de pedra - é um zoológico humano".

Humanos em uma cidade são como animais em um zoológico. É uma afirmação fascinante que me levou a um pensamento incomum.

Se tomarmos por certa a afirmação de Morris de que a cidade é essencialmente um zoológico humano, e que, como se sabe, é muito mais difícil para os animais acasalarem em cativeiro, então - poderiam as cidades limitar nossa capacidade de amar? Ao passo que nosso mundo se torna cada vez mais urbanizado, torna-se também mais solitário?

Há algum modo de impedir isso?

Vendo a infinidade de artigos sobre o Dia dos Namorados que inundou meu twitter, parece haver, ao menos na consciência coletiva, uma relação entre as grandes cidades e a solteirice.

Da suposta "tendência" de mulheres da cidade grande buscando o amor nos subúrbios, à lista do The Daily Beast das 50 melhores cidades para o amor e o artigo do Business Insider destacando onde - estatisticamente falando - você está mais susceptível a encontrar o amor (baseado na concentração de gênero), parece que muitas cidades simplesmente não favorecem o encontro entre as pessoas.

Cortesia de Business Insider
Cortesia de Business Insider

No artigo “Is Your City Making You Single?”,escrito para o The Atlantic Cities, Amanda Hess descreve sua luta pessoal para manter um relacionamento na espraiada Los Angeles, quando era tudo mais fácil em Washington D.C. Ela se pergunta: por que?

Bem, para começar, o tamanho. Em seu artigo, Hess procura em suas amigas de Nova Iorque uma possível resposta. Uma delas lhe diz: "as distâncias do metrô podem tornar as coisas esgotantes", ou seja, os romances podem facilmente morrer com num trem parado. (Quanto tempo de metrô você está disposto a investir em um encontro quando cada plataforma parece repleta de outras opções?) Outra amiga nota que, devido ao tamanho de Nova Iorque (e o anonimato que isso te proporciona), "a geografia da cidade é 'mais propícia para separações'".

Claro, você pode dizer que os nova-iorquinos são todos frios e simplesmente priorizam dinheiro e trabalho ao amor... e ainda assim há um um lugar em Nova Iorque que contradiz a tendência. Em seu TEDTalk, o cofundador do High Line Park, Robert Hammond, compartilha suas observações sobre como o parque elevado afeta as pessoas:

“Eu percebi assim que o inauguramos que havia todas essas pessoas de mãos dadas no High Line. E percebi que os nova-iorquinos não andam de mãos dadas; simplesmente não fazemos isso na rua. Mas podemos ver isso acontecendo no High Line, e acho que isso é o poder do espaço público de transformar o modo como as pessoas experienciam a cidade e interagem com os outros."

Curiosamente, as observações de Hess e Hammond fazem perfeito sentido sob a luz da teoria zoológica dos seres humanos. 

Segundo Morris, os humanos evoluíram para viver em grupos tribais de não mais que 150 habitantes; o habitante da cidade moderna simplesmente não consegue conceitualizar, nem se relacionar emocionalmente, com mais pessoas, dissociando-se de seus companheiros, vendo-os como parte da paisagem em vez de parte da "tribo". 

Antes de virar os olhos, você deveria considerar: por quantas pessoas em dificuldade - moradores de rua, pessoas machucadas etc. - você passa todos os dias nas ruas da cidade? Pessoas que você certamente ajudaria em uma situação diferente, mais íntima. O argumento de Morris é exatamente esse: a cidade é um ambiente não natural que dificulta a criação de laços sociais.

Morris continua e explica que como humanos, nos sentimos muito mais confortáveis em espaços menores onde podemos interagir com as pessoas. Ele afirma que fronteiras - sejam óbvias, como uma cerca, ou sutis, como uma toalha de picnic - permitem-nos relaxar e conectar com os outros. Também é importante, segundo a teoria de Morris, que não nos sentimos amontoados e estressados nesses espaços. 

Visto dessa perspectiva, é alguma surpresa que Washington D.C., uma cidade compacta repleta de regiões demarcadas e espaços verdes, seja, nas palavras de Hess, "para se aninhar"? O que o espaço verde e definido do High Line, localizado em meio ao denso ambiente urbano, se torne um dos poucos lugares onde os nova-iorquinos podem realmente se conectar e dar as mãos? 

Falcone Flyover de Philip A. e Lisa Maria. ©Iwan Baan
Falcone Flyover de Philip A. e Lisa Maria. ©Iwan Baan

O que é fascinante para mim, no entanto, é que a descrição de uma cidade projetada para o amor - compacta, caminhável, com espaços verdes e abertos e regiões distintas - é exatamente a definição de uma cidade "saudável", onde as comunidades podem prosperar.

Uma cidade projetada para o amor não é espalhada e desgovernada, mas compacta e acessível; não é superlotada e estressante, mas aberta e verde; não é anônima e fria, mas familiar e voltada para a comunidade. Uma cidade projetada para o amor não é um zoológico humano, mas um playground, onde podemos respirar livremente e nos relacionar com os demais de forma humana. 

Enquanto nosso mundo se torna cada vez mais urbanizado e nossas cidades ainda maiores, devemos nos certificar de projetar não apenas cidades que amamos, mas cidades que nos permitam amar os demais. Ao fim, é tudo a mesma coisa.

Cita: Quirk, Vanessa. "Como nossas cidades nos mantêm solteiros (e porque isso tem que mudar)" [How Our Cities Keep Us Single (And Why That Has to Change)] 05 Mar 2015. ArchDaily Brasil. (Trad. Baratto, Romullo) Acessado . <http://www.archdaily.com.br/br/763047/como-nossas-cidades-nos-mantem-solteiros-e-porque-isso-tem-que-mudar>
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