Estátuas em chamas: como estamos construindo a memória em nossas cidades?

Estátuas em chamas: como estamos construindo a memória em nossas cidades?

No dia 17 de agosto foi comemorado no Brasil o Dia do Patrimônio Nacional, 21 dias depois do ato de protesto que incendiou a Estátua do Bandeirante Borba Gato, na zona sul de São Paulo. Esta contradição abre espaço para uma importante discussão: como estamos construindo memória em nossas cidades? O que estamos valorizando enquanto patrimônio do nosso país? 

O termo patrimônio histórico cultural se refere às produções, materiais e imateriais, de uma determinada cultura inserida na sociedade. O que caracteriza um bem cultural como patrimônio é a sua relevância histórica e social, a qual pode ser associada à memória coletiva e individual, visto que é através dessas memórias que ocorre a compreensão do passado. Quando pensamos a partir da perspectiva da arquitetura, o termo patrimônio está constantemente relacionado a edifícios antigos que comummente estampam os valores religiosos católicos, ou ainda a vida burguesa da elite.

© Felipe_Borges on Visualhunt
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Assim como essas arquiteturas, a nossa ocupação territorial recente também é fruto do colonialismo que as define tanto como objeto, quanto como patrimônio. O tecido urbano das nossas cidades, planejados ou não, evidenciam monumentos, estátuas, casarões e igrejas, colocando, muitas vezes, esse colonialismo, e todas as violências intrínsecas a ele, em um protagonismo que lhe é verdadeiro, porém pouco digno. Uma pesquisa lançada há pouco tempo pelo Instituto Pólis evidenciou que, não só a grande maioria dos monumentos da cidade de São Paulo foram feitos em homenagem a homens brancos, mas que a diferença entre gênero e raça é substancial.

via Instituto Polis
via Instituto Polis

Dos 367 monumentos, 200 retratam pessoas, dos quais 137 são homens brancos, enquanto 18 retratam mulheres brancas. Do restante, 6 monumentos representam homens árabes, 4 homens indígenas, 4 homens negros e 4 homens orientais. Em relação às mulheres, há apenas 1 mulher negra, e o restante não são identificáveis. Esses dados apenas comprovam aquilo que as ruas, praças e lugares nos sinalizam já há muito tempo: trata-se de uma memória segregadora e não representativa. 

via Instituto Polis
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O Instituto Polis acrescenta ainda mais uma importante informação: de todos os monumentos, 28 são destinados a personagens controversos da história. Figuras como Anhanguera, Padre Anchieta, Duque de Caxias, e até pessoas mais recentes como o Governador Abreu Sodré são homenageados em estátuas másculas, fortes e carregadas de simbolismos, projetadas todas por homens e localizadas majoritariamente no centro da cidade. Um pouco afastada do centro da cidade está a estátua do Bandeirante Borba Gato, que foi, recentemente, objeto de manifestação. 

© Katia Portes is licensed under CC BY-NC-SA 2.0
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Dentro desse contexto, se considerarmos que o patrimônio tem uma importante função de formação de identidade que estimula as pessoas a saberem sobre si, seu passado e seu presente, e criar assim seus costumes, entendemos o que Hugo Menezes Neto chama de um “antipatrimônio”, um patrimônio que exclui e segrega, “cuja presença no espaço público acentua as tensões sociais mais do que conjuga as diferenças ou valoriza a diversidade, premissas do patrimônio cultural.” E é a partir dessas tensões que vemos crescer os atos e protestos que lutam, não somente pela derrubada de figuras racistas e genocidas na cidade onde vivem, mas também por transformações mais profundas na sociedade. 

© pslachevsky on VisualHunt 2
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Desde 2019 na América Latina, com os protestos e manifestações Chilenos, e depois em 2020 na América do Norte, com o movimento “Black Lives Matter”, uma das estratégias de protesto foi focar nos monumentos como objetos de manifestação. Em Bistrol, Inglaterra, os manifestantes derrubaram a estátua de Edward Colston, traficante de escravos inglês, e a atiraram na água no porto da cidade. Nos Estados Unidos, em cidades como Boston e Richmond, houve casos de depredação de estátuas de figuras como Cristóvão Colombo, colonizador espanhol. 

© Keir Gravil Via Filckr
© Keir Gravil Via Filckr

Em Lisboa, a estátua do Padre Antônio Vieira também sofreu com protestos, enquanto que no Chile as constantes manifestações que lutavam por uma nova constituição focaram intensamente na estátua do general do Exército Manuel Baquedano. A estátua foi retirada de seu plinto para ser restaurada durante a onda de protestos, porém, dificilmente será colocada de volta, pois, desde a vitória da população para escrever uma nova constituição, a praça, que levava seu nome, foi renomeada para Plaza Dignidad.

© pslachevsky on VisualHunt 2
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As estátuas citadas representam instâncias como a igreja católica, o exército, ou ainda, as práticas coloniais com suas políticas de genocídio. Esses povos resistiram e sobreviveram, mas ainda assim precisam conviver com seus fantasmas em seu dia a dia. Importante lembrar que não são somente monumentos, existem também nomes de ruas, praças, pontes e tantas outras formas de violência que o espaço urbano fornece para as minorias. Dessa forma Neto afirma: 

Trata-se, então, a derrubada, de um fenômeno que responde à ressignificação do conceito de patrimônio, à tomada de consciência dos jogos de poder dele constitutivos, à crítica ao autoritarismo da chancela patrimonial e à urgência da revisão dos repertórios patrimoniais em suas dimensões imagéticas e discursivas.

A repercussão, porém, da derrubada ou depredação desses patrimônios traz à tona o preconceito velado, onde o incômodo maior é com a depredação do patrimônio material público, do que com as ideias que aquelas figuras representam. A "fúria-iconoclasta", porém, não é uma manifestação reservada a esses grupos de agora. Durante os séculos VIII e IX, o Movimento Iconoclasta pregava contra a adoração de ícones religiosos, por exemplo. Além disso, é fundamental levantar indagações sobre os espaços públicos e quem são os grandes homenageados que são aptos a ocupar esses espaços ilustres, tanto subjetivamente, quanto espacialmente na cidade.

© São Paulo. Foto de Ferran Feixas, via Unsplash
© São Paulo. Foto de Ferran Feixas, via Unsplash

A memória, impressa na cidade por meio dos monumentos e construções, estabelece um vínculo entre as gerações humanas e o tempo histórico. As pessoas, a partir daí, passam a se enxergar como sujeitos da história, de modo que o patrimônio histórico cultural não age apenas como uma preservação do passado, mas também como construção do futuro. Questionar essas figuras de poder e reivindicar reparação histórica é parte da construção desse futuro e das cidades. Com base na pressão social após o ato do Borba Gato, cinco personalidades negras ganharão estátuas na cidade de São Paulo: a escritora Carolina Maria de Jesus, o músico Geraldo Filme, o atleta olímpico Adhemar Ferreira da Silva, a sambista Deolinda Madre (madrinha Eunice) e o cantor Itamar Assumpção serão homenageados em diferentes pontos da cidade.

Apesar de uma manobra importante e do reconhecimento dessas figuras, é necessário não perder de vista que a luta pela descolonialidade e a quebra da estrutura racista e machista está além dos meios físicos das cidades. A luta popular é historicamente fundamental para transformações estruturais e ela reflete também no ambiente construído. 

Referências:
Hugo Menezes Neto, 2020. A presença negra nos espaços públicos de são paulo

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Sobre este autor
Cita: Giovana Martino. "Estátuas em chamas: como estamos construindo a memória em nossas cidades? " 12 Set 2021. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/967173/estatuas-em-chamas-como-estamos-construindo-a-memoria-em-nossas-cidades> ISSN 0719-8906

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