O que é o Novo Urbanismo?

O que é o Novo Urbanismo?

Autodeclarado um movimento unido em torno da ideia de que o ambiente físico pode ter impacto direto no oferecimento de vidas mais prósperas e felizes aos habitantes, o Novo Urbanismo surgiu enquanto conceito nos Estados Unidos na década de 1990 e se consolidou por meio dos Congressos do Novo Urbanismo (CNU), realizados anualmente desde 1993.

Em 1996, três anos após o I Congresso do Novo Urbanismo, é lançada a Carta do Novo Urbanismo com o objetivo de estabelecer os ideais e princípios norteadores do movimento e, dessa forma, explorar as possibilidades do desenvolvimento das cidades norte-americanas.

Celebration, Flórida. Imagem: © Robert Benson PhotographyPoundbury, Inglaterra. Imagem: © Andy SpainCelebration, Flórida. Imagem: © Robert Benson PhotographyCelebration, Flórida. Imagem: © Robert Benson Photography+ 6

A Carta do Novo Urbanismo

A Carta se inicia com os principais desafios que o Novo Urbanismo busca enfrentar, como espraiamento urbano desregulado, o desinvestimento nos centros urbanos, o aumento da segregação nas cidades, a perda de solos agrícolas, a degradação ambiental e a “erosão” do patrimônio edificado. Este cenário, frequente em muitas cidades norte-americanas entre as décadas de 1980 e 1990, causou uma grande insatisfação para muitos arquitetos, urbanistas e demais profissionais ligados ao desenvolvimento das cidades.

Celebration, Flórida. Imagem: © Robert Benson Photography
Celebration, Flórida. Imagem: © Robert Benson Photography

Com a Carta do Novo Urbanismo, são estabelecidas as principais ideias e conceitos norteadores do movimento, reunidos em 27 princípios divididos em três tópicos, que representam as diferentes escalas de ocupação de uma região, sendo eles:

  • A região: metrópole, cidade e vila

A Carta define uma metrópole como um conjunto de cidades e municípios com seus centros e margens bem definidos. Neste tópico, defende-se que as comunidades contíguas aos limites da cidade devem ser organizadas em bairros e distritos integrados ao tecido urbano e aquelas além dos limites das cidades devem ser desenvolvidas como pequenas cidades independentes, com sua própria infraestrutura e serviços, de forma a não resultar em “subúrbios-dormitórios”.

  • A vizinhança, o bairro e o corredor

Considerados elementos essenciais para o desenvolvimento e redesenvolvimento das metrópoles, a vizinhança, o bairro e o corredor devem ser planejados, segundo a Carta, de forma a encorajar o percurso a pé, prevendo, por exemplo, atividades a distâncias caminháveis e passeios largos. As vizinhanças devem ser multiculturais, o bairro deve conter serviços, escolas e parques e, por fim, os corredores (ruas e avenidas) devem ser planejados e coordenados de forma a conectar as diferentes regiões da melhor forma.

  • O quarteirão, a rua e o edifício

O tópico inicia com a definição de ruas e espaços públicos como espaços de uso coletivo que devem ser seguros para as pessoas. Em termos arquitetônicos, a Carta prevê que os projetos de edifícios individuais devem estar bem integrados ao seu entorno e que esta questão transcende o estilo. Além disso, a arquitetura e o paisagismo devem estar de acordo com o clima, topografia e práticas construtivas locais.

Celebration, Flórida. Imagem: © Robert Benson Photography
Celebration, Flórida. Imagem: © Robert Benson Photography

Em linhas gerais, os novos urbanistas defendem uma reconfiguração dos centros urbanos com suas respectivas regiões metropolitanas e a transformação dos subúrbios em expansão em comunidades que buscam preservar o meio ambiente natural e o legado construtivo. Como resultado desses posicionamentos, foram consolidadas e popularizadas algumas estratégias de planejamento urbano, como o desenvolvimento de uso misto, o desenvolvimento orientado ao trânsito (transit-oriented development - TOD), os projetos de bairros tradicionais (traditional neighborhood design - TND), a integração de padrões projetuais em moradias populares e o projeto de ruas completas.

Cidades do Novo Urbanismo

Muitos consideram a cidade de Seaside, na Flórida, como a primeira cidade planejada segundo os preceitos do Novo Urbanismo, ainda que alguns estudiosos a considerem um empreendimento sem a integração regional que prega o movimento. Também conhecida por ser cenário do filme O show de Truman, do diretor Peter Weir, Seaside foi projetada em 1981 por Andrés Duany e Elizabeth Plater-Zyberk, dois dos principais nomes do movimento, e teve um enorme sucesso como empreendimento comercial.

Seaside, Flórida. Imagem capturada do filme "O Show de Truman" / Paramount Pictures
Seaside, Flórida. Imagem capturada do filme "O Show de Truman" / Paramount Pictures

Outro exemplo emblemático do movimento é a cidade de Celebration, também na Flórida. Construído em 1994, o empreendimento imobiliário da Disney Corporation é fruto de uma colaboração entre a Cooper, Robertson & Partners e Robert A.M. Stern e, junto a Seaside, tornou-se um produto para o setor imobiliário e turístico norte-americano. O site do Congresso para o Novo Urbanismo define Celebration como uma cidade ativa que atrai pessoas com sua ênfase nos princípios tradicionais de planejamento urbano.

Celebration, Flórida. Imagem: © Robert Benson Photography
Celebration, Flórida. Imagem: © Robert Benson Photography

A partir do sucesso das primeiras cidades planejadas e construídas sob os moldes do Novo Urbanismo, o movimento cresceu e tanto a sua prática como a presença em discussões teóricas se tornaram mais frequentes. Embora tipicamente norte-americano, o modelo pode ser encontrado em outras cidades e bairros ao redor do mundo, como Melrose Arch, em Joanesburgo e a cidade experimental (ou extensão urbana) de Poundbury, na Inglaterra, apenas para citar algumas. Além das cidades do Novo Urbanismo, experiências urbanas em diferentes escalas também encontram respaldo no movimento, como é demonstrado no livro 25 Great Ideas of New Urbanism, que reúne experiências das últimas três décadas que, se não foram inventadas por novos urbanistas, ao menos contaram com sua contribuição.

Poundbury, Inglaterra. Imagem: © Andy Spain
Poundbury, Inglaterra. Imagem: © Andy Spain

O Novo Urbanismo é realmente novo?

A defesa da participação comunitária, da caminhabilidade das cidades, das áreas de uso misto e da concepção de espaços públicos que encorajem o convívio das pessoas são ideais recorrentes no âmbito do planejamento urbano, e por isso alguns autores consideram o conjunto de princípios norteadores do Novo Urbanismo como senso comum no campo. No artigo The New Urbanism and the Communitarian Trap, David Harvey pontua sua preocupação de que o movimento repita a falácia dos estilos de planejamento que critica:

[O Novo Urbanismo] não perpetua a ideia de que a formação de uma ordem espacial é ou pode ser a base para uma nova ordem moral e estética? Não pressupõe que um projeto adequado e qualidades arquitetônicas serão a salvação não apenas das cidades americanas, mas da vida social, econômica e política em geral? - David Harvey

Embora as críticas em torno da suposta “novidade” envolvida no conceito não sejam as únicas a questionar a teoria e prática do Novo Urbanismo, são fundamentais para pôr o tema em perspectiva e lançar novos olhares para o movimento, sobretudo ao se considerar o intervalo temporal que distancia o I Congresso do Novo Urbanismo e suas reverberações quase três décadas depois.

Este artigo é parte do Tópico do ArchDaily: O Futuro das Cidades. Mensalmente, exploramos um tema específico através de artigos, entrevistas, notícias e projetos. Saiba mais sobre os tópicos mensais. Como sempre, o ArchDaily está aberto a contribuições de nossos leitores; se você quiser enviar um artigo ou projeto, entre em contato.

Referências bibliográficas
CNU. The Charter of the New Urbanism. Congress for the New Urbanism. Acesso em: 21 jan. 2021.
HARVEY, David. The new urbanism and the communitarian trap. Harvard Design Magazine, n. 1, 1997. Acesso em: 21 jan. 2021.

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Sobre este autor
Cita: Susanna Moreira. "O que é o Novo Urbanismo?" 24 Jan 2021. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/955574/o-que-e-o-novo-urbanismo> ISSN 0719-8906

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