A evolução no entendimento das escalas humanas na arquitetura

A evolução no entendimento das escalas humanas na arquitetura

“A mão inteira será a décima parte do homem; Da parte inferior do queixo ao topo da cabeça é um oitavo de sua altura; Dos mamilos ao topo da cabeça será a quarta parte da altura.” Se você continua aqui sem ter ido buscar uma trena, essas frases foram escritas por Marcos Vitrúvio Polião, arquiteto romano que viveu no século I a.C., cujo maior legado foi o tratado escrito em latim “De Architectura Libri Decem” (em português, traduzido para Tratado de Arquitetura). Os dados apresentados por Vitruvius foram compilados e desenhados cerca de mil e quinhentos anos depois por Leonardo Da Vinci, em seu célebre trabalho “L’Uomo di Vitruvio”, intensamente reproduzido em diversos contextos, de capas de livros a aventais de cozinha.

<a href='https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Da_Vinci_Vitruve_Luc_Viatour.jpg'>Leonardo da Vinci / Public domain</a>
Leonardo da Vinci / Public domain

Da Vinci representa um homem desnudo, em duas posições distintas sobrepostas, inscritas em um círculo e um quadrado, com todas as proporções do corpo perfeitas segundo os preceitos vitruvianos. Encontrar uma razão para as proporções na natureza e no homem é algo que sempre fascinou os estudiosos. E buscar a relação do corpo aos espaços também. Vitruvius defendia que os edifícios deveriam se basear na simetria e proporção da forma humana. “Para ele a composição dos “recintos dos deuses imortais”, ou seja: os templos, depende da proporção.” [1] 

Na Alemanha do período entre guerras Ernst Neufert lançou, em 1936, o seminal Bauentwurfslehre (em português, Arte de Projetar em Arquitetura). O livro apresenta ilustrações dimensionadas de tipologias arquitetônicas básicas que se destinavam a permitir a produção rápida e sistemática de edifícios. Desde então foram realizadas 39 edições alemãs e 19 em português, além de ter sido publicado em 18 idiomas e vendido mais de um milhão de exemplares no total. Incorporadas nas páginas estavam prescrições de comportamentos apropriados, papéis de gênero e corpos humanos padronizados. Por exemplo, enquanto uma figura masculina é apresentada no início como “A escala de todas as coisas”, nos modelos de dimensões para cozinhas há apenas figuras femininas.

© Neufert
© Neufert

Já em 1948, o arquiteto Charles-Édouard Jeanneret-Gris - mais conhecido como Le Corbusier -, lançou uma de suas publicações mais famosas, intitulada O modulor, seguida por O modulor 2 em 1953. Nesses textos, ele fez conhecer sua abordagem às investigações que tanto Vitrúvio quanto Da Vinci haviam começado, em um esforço por encontrar a relação matemática entre as medidas do homem com a natureza. Trata-se de um sistema de medidas em escala humana a partir da proporção áurea. O Modulor final é composto de três medidas principais: a altura do homem que é 1,83 m, ou 6 pés, (anteriormente, o modulor contava com 1,75 m de altura, que equivalia ao francês médio) a altura com o braço levantado que é 2,26 m e a altura do umbigo que é a metade que é 1,13 m. São três intervalos que geram uma seção áurea, chamada Fibonacci.

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A ideia do Modulor era possibilitar a definição de uma escala universal para as edificações, evitando confusões de conversões entre os sistemas métricos e imperiais. O Modulor se aplica às dimensões da habitação, mas também aos mobiliários, visando proporcionar ao habitante uma sensação de bem-estar e conforto. A Unidade de Habitação de Marselha foi o primeiro projeto em que todas as dimensões eram múltiplas da escala.

Mas algo que todas as representações apresentadas até aqui se assemelham é sempre dizerem respeito à figura de homens, jovens e saudáveis. Como aponta Lance Hosey, “Os diferentes métodos usados para representar o corpo revelam que a ‘figura humana’ é específica de gênero e raça: masculina e branca. (...) As ilustrações dimensionam o corpo em várias posições, mas apenas um tipo de corpo é mostrado. Historicamente, quando um único corpo é proposto para representar todas as pessoas, o corpo é masculino. Tais padrões permanecem firmemente embutidos na arquitetura moderna, nas dimensões, conexões e ideias de espaço mínimo e eficiente e nas próprias regulamentações que os controlam. [2]

Human-Reification. Image © Paul Gisbrecht
Human-Reification. Image © Paul Gisbrecht

De fato, isso vai muito além da arquitetura. Em seu livro Invisible Women: Exposing Data Bias in a World Designed for Men, a autora Caroline Criado Perez expõe como o mundo é, em geral, desenhado seguindo dimensões masculinas, desde cintos de segurança a softwares de reconhecimento de voz que funcionam melhor para os timbres dos homens. 

Citando José Almeida Lopes Filho e Sílvio Santos da Silva [1], é a partir da década de 60 que algumas concepções começam a mudar, ao menos nos manuais. “A constatação do grande número de pessoas portadoras de deficiência, as necessidades das pessoas idosas e os avanços da medicina, impulsionaram para o completo entendimento de que os homens não são iguais. (...) São os países nórdicos e a Inglaterra que iniciam o questionamento de que o entendimento vitruviano da “figura humana bem constituída” pode ser substituído pelo do homem concebido, respeitado e analisado dentro da sua diversidade de capacidades e, também, incapacidades.”

A chair that fits all shapes of people. Investigations by Bill Stumpf. Image Cortesia de Herman Miller
A chair that fits all shapes of people. Investigations by Bill Stumpf. Image Cortesia de Herman Miller

Além do sexo, as dimensões e formatos de corpo variam conforme diferenças físicas e culturais, incluindo raça, idade, nacionalidade, ocupação e condições socioeconômicas. Selwyn Goldsmith, com o seu Designing for the Disabled: A Manual of Technical Information, trouxe à luz as dimensões peculiares de pessoas em cadeiras de rodas, e incluiu variantes de sexo, idade e capacidades das pessoas. 

Entre 1974 e 1981, a empresa de design Henry Dreyfuss Associates desenvolveu o guia Humanscale (que começou a ser reimpresso em 2017). Os gráficos mostram as medidas do corpo humano e como ele se relaciona com o espaço circundante. Destinam-se a servir de guia para conceber tudo, desde assentos e cadeiras de rodas a veículos e capacetes, e representam homens, mulheres e crianças, deficientes e idosos. Usando uma camada seletora que gira em torno de cada modelo, os usuários podem coletar dados, dependendo da idade, tamanho ou mobilidade da pessoa em questão.

A chair that allows to maintain a neutral, balanced posture and stay aligned with the visual display. Image Cortesia de Herman Miller
A chair that allows to maintain a neutral, balanced posture and stay aligned with the visual display. Image Cortesia de Herman Miller

De qualquer forma, é sempre prudente analisar os manuais com um olhar crítico. Segundo Lance Hosey [2], “Os antropometristas há muito concordam que uma média é uma abreviatura enganosa que causa erros perigosos”. Segundo a autora, descrever algo como “normal” é questionável. A palavra pode ser quantitativa, referindo-se a uma distribuição estatística. Mas, talvez mais recorrentemente, pode ser qualitativa, implicando em um padrão de avaliação politicamente carregado. Ou seja, se há o normal, qualquer coisa levemente diferente será tido como anormal. “Normas e ideais são confundidos rotineiramente, e identificar um tipo como 'normal' constrói uma distinção entre Eu e Outro, entre o sujeito privilegiado e o objeto marginalizado. Ao posicionar um tipo de corpo para representar todos, os Padrões Gráficos apoiam essa dicotomia.”

© Neufert
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Ainda que a maior parte dos guias, normativas e teorias comecem a incluir peculiaridades, buscando abranger o máximo de pessoas e realidades, não é difícil observar como muitas das nossas arquiteturas e cidades permanecem não sendo pensadas, exatamente, para receber pessoas com distintas capacidades. Seria uma herança modernista, modeladora e mesmo opressora pairando no ar? Continuamos desenvolvendo arquiteturas moldadas nas proporções do ser humano ou tentamos moldá-lo a partir dos nossos edifícios? E claro, não é tarde para lembrar - não se preocupe se suas proporções não se assemelharam às do Homem Vitruviano.

© Neufert
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Notas

[1] José Almeida Lopes Filho e Sílvio Santos da Silva. Antropometria. Sobre o homem como parte integrante dos fatores ambientais. Sua funcionalidade, alcance e uso (1). Arquitextos Vitruvius. Disponível neste link.
[2] Lance Hosey. Hidden Lines: Gender, Race, and the Body in Graphic Standards. Journal of Architectural Education. November 2001.

Este artigo faz parte do Tópico do Mês do ArchDaily: Escala Humana. Cada mês exploramos um tópico em profundidade por meio de artigos, entrevistas, notícias e obras. Conheça mais sobre nossos tópicos aqui. E como sempre, nós do ArchDaily, valorizamos as contribuições de nossos leitores. Se você deseja enviar um artigo ou trabalho, entre em contato conosco.

Sobre este autor
Cita: Eduardo Souza. "A evolução no entendimento das escalas humanas na arquitetura" 20 Out 2020. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/949315/a-evolucao-no-entendimento-das-escalas-humanas-na-arquitetura> ISSN 0719-8906

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