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Arquitetura para pessoas com deficiência auditiva: 6 dicas de projeto

Arquitetura para pessoas com deficiência auditiva: 6 dicas de projeto

Ao contrário do que podemos acreditar, a perda de audição nem sempre é congênita. Mais cedo ou mais tarde isso pode acontecer com todos nós. Segundo a OMS, quase um terço das pessoas com mais de 65 anos sofrem de perda auditiva incapacitante. A perda auditiva é mais uma "diferença" do que uma "deficiência". Embora as demandas espaciais das pessoas com impedimentos auditivos não sejam tão marcadas como espaços para cegos ou para aqueles com mobilidade reduzida, a redução da capacidade auditiva implica uma maneira específica de experenciar o ambiente. É possível aprimorar essa experiência através do projeto de interiores?

 Microsoft New England Research & Development Center / Sasaki . Image © John Horner McDonald’s HQ Workplace / Studio O+A + IA Interior Architects. Image © Garrett Rowland Artek HQ Helsinki / SevilPeach. Image © Tuomas Uusheimo Photography Locomobile Lofts / Studio IDE. Image © Renae Lillie + 7

Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 5% da população mundial - aproximadamente 466 milhões de pessoas - é diagnosticada com o que chamam de 'perda auditiva incapacitante'. Embora seja dividido em diferentes graus de audição, parcial ou total (hipocusia ou anacusia), esse grupo é caracterizado por perda auditiva superior a 40dB no ouvido, com melhor audição em adultos e superior a 30dB no ouvido com melhor audição em crianças, concentrando o maior número de pessoas com essa deficiência nos países de baixa e média renda.

Como contribuir através do projeto?

Obviamente, a primeira coisa a considerar são as diferenças que variados programas exigem: não é o mesmo projetar o interior de uma casa e o interior de um hospital, além de qualquer impedimento que possamos ter. As relações, dimensões e movimentos são diferentes, assim como o volume e a função dos sons. No entanto, há certas considerações gerais a levar em conta para projetar espaços mais acusticamente confortáveis.

Distribuição interna e visibilidade

As pessoas com deficiência auditiva usam métodos diferentes para se comunicar, incorporando linguagem escrita, dispositivos auxiliares, linguagem gestual ou oral em alguns casos. Segundo a ADA (Americans with Disabilities Act - Lei dos Americanos Portadores de Deficiência), em média, apenas um terço das palavras faladas podem ser entendidas pela leitura labial. É fundamental criar condições espaciais para uma comunicação eficaz por meio desses diferentes métodos, o que implica sempre conceder a possibilidade de que os interlocutores se enfrentem confortavelmente sem precisar parar de se olhar enquanto conversam.

Apartamento en Delicias / EME157 estudio de arquitectura. Image © Luis Alda
Apartamento en Delicias / EME157 estudio de arquitectura. Image © Luis Alda

Considerar distribuições amplas ou circulares, mais que lineares, para espaços de mais de 4 pessoas pode facilitar um canal de comunicação aberto, onde todos os participantes podem se ver. Além das dimensões do local disponível, divisões e mobiliários móveis podem ajudar a organizar espaços dessas características. Em termos de mobilidade, é importante facilitar as rotas e favorecer ações instintivas que permitam que duas pessoas continuem se olhando enquanto caminham, atravessando o espaço com segurança. Rampas, aberturas automáticas, elementos gráficos de segurança e sinalização são igualmente úteis neste caso.

Brilho, luz e reflexos

Por razões semelhantes, a luz desempenha um papel fundamental para assegurar não apenas o conforto, mas, neste caso, especialmente a comunicação. As cores que contrastam com os tons de pele ajudam outras pessoas a perceberem melhor as expressões faciais e os movimentos das mãos. Por outro lado, a iluminação natural ou artificial precisa ser suficiente para garantir uma visão clara, mas não excessiva (evitando o brilho), e contínua para assegurar mudanças repentinas na atmosfera que possam ser perturbadoras. As janelas devem ter maneiras de regular a luz interna, além de vidros e espelhos. Alguns especialistas recomendam o uso de espelhos para manter um maior controle visual do ambiente, desde que estejam bem posicionados e não contribuam para a confusão na compreensão do espaço.

 Microsoft New England Research & Development Center / Sasaki . Image © John Horner
Microsoft New England Research & Development Center / Sasaki . Image © John Horner

Espaços multissensoriais

Diz-se que quando um sentido é perdido, outros se tornam mais agudos, ou pelo menos se tornam mais protagonistas. Cores, sombras e até vibrações podem ajudar as pessoas com limitações auditivas a entender melhor e alertá-las sobre seu entorno. Em uma cultura altamente visual, tendemos a esquecer que a experiência do espaço abrange todos os sentidos. O design multissensorial, enraizado na década de 1950, propõe o desfrute do espaço através dos sentidos, demonstrando que, ao se abrir para múltiplas experiências sensoriais, é possível satisfazer uma ampla gama de usuários. Até agora, táticas para o design multissensorial foram exploradas em exposições e instalações de arte, para demonstrar seu alcance a um público mais amplo, preparando-os para entrar no campo da arquitetura.

McDonald’s HQ Workplace / Studio O+A + IA Interior Architects. Image © Garrett Rowland
McDonald’s HQ Workplace / Studio O+A + IA Interior Architects. Image © Garrett Rowland

Otimização acústica 

Ao contrário da crença popular, o ruído - além de ser uma causa séria de perda auditiva - é um fator crítico no bem-estar de pessoas com baixos níveis auditivos. Independentemente do grau, as pessoas com baixos níveis auditivos percebem o som de maneiras que podem ser altamente perturbadoras, especialmente para indivíduos com dispositivos auxiliares. A reverberação causada por ondas sonoras e refletida por superfícies duras pode ser perturbadora e até dolorosa para elas. Para melhorar essas condições internas, basta seguir os princípios acústicos básicos. Dentro de casa, melhorar a acústica de um espaço consiste principalmente em reduzir a reverberação, reconhecendo o nível de absorção dos materiais que o compõem, distribuindo ruídos ou fontes sonoras, como máquinas ou alto-falantes, e considerando um gradiente de ruído ambiente de acordo com o uso.

McDonald’s HQ Workplace / Studio O+A + IA Interior Architects. Image © Garrett Rowland
McDonald’s HQ Workplace / Studio O+A + IA Interior Architects. Image © Garrett Rowland

Materiais, objetos e novas tecnologias

Para alcançar uma cultura de design inclusivo, é importante pensar em soluções simples que não aumentem o custo base do projeto, independentemente das soluções específicas que possam existir no mercado. Por um lado, é necessário equilibrar o uso de materiais absorventes e refletivos, para reduzir a intensidade do som que viaja de um espaço para outro. Por outro lado, é importante considerar o efeito dos materiais no uso diário: evite superfícies muito brilhantes, materiais em pisos e móveis que normalmente causam ruído ao contato (como ao mover móveis) ou promova revestimentos que transmitam vibrações (como pisos de madeira que reverberam ao caminhar).

Artek HQ Helsinki / SevilPeach. Image © Tuomas Uusheimo Photography
Artek HQ Helsinki / SevilPeach. Image © Tuomas Uusheimo Photography

Além dos materiais de revestimento, existem objetos e tecnologias que, ao considerar os atos cotidianos, podem tornar o espaço mais confortável. Na cidade, frequentemente nos comunicamos através de ruídos - campainhas, sinos, sirenes - que interferem no conforto acústico de todos. Pensando em sinais visuais, como alertas de luz ou digitais, a comunicação por meio de quadros brancos ou códigos de cores pode servir como soluções simples para a comunicação diária. Existem também novas tecnologias que permitem converter som em imagens e vibrações para experiências mais complexas ou aplicativos que reconhecem o som ambiente (como a máquina de lavar) ou convertem alertas em cores.

Locomobile Lofts / Studio IDE. Image © Renae Lillie
Locomobile Lofts / Studio IDE. Image © Renae Lillie

Em síntese, um projeto verdadeiramente inclusivo não implica estar sempre ciente de considerações especiais, mas incorporar na gênese necessidades que tendem a ser básicas para todos, independentemente de suas condições físicas. Como assumimos a acessibilidade universal como um conceito essencial ao projetar espaços, devemos assumir que nem todos os impedimentos são equivalentes e que diferentes limitações enfrentam necessidades particulares. A inclusão implica ir muito além de espaços e critérios especializados (não é verdadeira inclusão se espaços especiais forem criados), mas evitar essa segregação em favor de tornar nosso ambiente diário amigável a todas as pessoas, independentemente de suas limitações de atividade ou restrições de participação.

Além da OMS e dos artigos vinculados anteriormente, algumas das referências usadas para este artigo são:

Sobre este autor
Cita: Piñeiro, Antonia . "Arquitetura para pessoas com deficiência auditiva: 6 dicas de projeto" [Arquitectura para personas con pérdida auditiva: 6 consejos de diseño] 31 Mar 2020. ArchDaily Brasil. (Trad. Souza, Eduardo) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/936589/arquitetura-para-pessoas-com-deficiencia-auditiva-6-dicas-de-projeto> ISSN 0719-8906

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