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Resgatando o passado: que futuro podem ter os gasômetros desativados?

Resgatando o passado: que futuro podem ter os gasômetros desativados?

Considerados marcos paisagísticos por suas imponentes dimensões, os gasômetros surgiram no contexto da Revolução Industrial e estiveram presentes em muitas cidades ao redor do mundo, acompanhando seu processo de urbanização. Com as mudanças na geração e distribuição de gás na segunda metade do século XX e surgimento de novas tecnologias, os gasômetros foram gradualmente desativados. Embora muitos tenham sido condenados à demolição nos últimos anos, muitos também ainda permanecem no tecido urbano e são testemunhas de um passado industrial. Seu potencial para intervenções arquitetônicas, artísticas e paisagísticas nos leva a questionar quais seriam as possibilidades para seu futuro.

Montagem da instalação "Big Air Package" no Gasômetro de Oberhausen. © Wolfgang Volz, 2013 Christo © Herzog & de Meuron © Wolfgang Volz, 2013 Christo Gasômetro de Viena. Foto de tyrosin, via VisualHunt.com / CC BY-NC + 7

Os primeiros gasômetros surgiram no século XIX com o intuito de armazenar o gás produzido pela queima de carvão para suprir a demanda das cidades em crescimento. No entanto, começaram a ser desativados em diversas partes do mundo entre o final do século XX e início do século XXI, devido ao uso de materiais mais resistentes nas tubulações e à conversão do gás de carvão para gás natural, permitindo que o gás fosse armazenado no subsolo na própria rede distribuidora ou em esferas de alta pressão com volumes menores [1]. Como forma de manter o funcionamento das estruturas de gasômetros, algumas companhias as utilizam como forma de economizar nas instalações e tubulações ou ainda como centros operacionais. 

Gasômetro em West Ham, East London.Foto de Squiddy, via Wikimedia Commons
Gasômetro em West Ham, East London.Foto de Squiddy, via Wikimedia Commons

Apesar dos gasômetros serem considerados bens do período industrial, com valores históricos, paisagísticos e arquitetônicos próprios, decisões de empresas responsáveis por estas estruturas têm, nos últimos anos, determinado a sua demolição. Em 2013, três companhias no Reino Unido anunciaram planos para demolir um total de 187 gasômetros em 16 anos [2]. No entanto, projetos de intervenção realizados nas últimas décadas demonstram que existem outras possibilidades para estas emblemáticas estruturas, que têm diâmetro aproximado de 60 metros e alturas que podem ultrapassar 100 metros.

Um dos mais conhecidos projetos de reuso adaptativo em gasômetros é o complexo do Gasômetro de Viena, que foi adaptado pelos projetos de Jean Nouvel, Coop Himmelb(l)au, Manfred Wehdorn e Wilhelm Holzbauer. Dividido em usos comercial, residencial, escritórios e entretenimento, a nova estrutura foi finalizada em 2001, preservando o exterior em tijolos da estrutura que foi utilizada entre 1899 e 1984, mas desativada depois da mudança de gás de carvão para gás natural entre 1969 e 1978.

Gasômetro de Viena. Foto de tyrosin, via VisualHunt.com / CC BY-NC
Gasômetro de Viena. Foto de tyrosin, via VisualHunt.com / CC BY-NC

Em um recente projeto para o Gasômetro de Estocolmo, Herzog & de Meuron e os paisagistas Piet Oudolf e LOLA intervêm nos edifícios industriais do século XIX projetados pelo arquiteto Ferdinand Boberg, incluindo dois gasômetros de tijolos, que serão preservados. O projeto arquitetônico principal cerca os dois suportes de aço adicionais do início do século 20: enquanto o menor deles abrigará um espaço de exposições, o maior, de 100 metros de altura, será transformado em uma torre de uso misto residencial com uma galeria de arte no térreo.

© Herzog & de Meuron
© Herzog & de Meuron

Com 117,5 metros de altura e diâmetro de 67,6 metros, o imponente Gasômetro de Oberhausen, na Alemanha, foi transformado em um espaço de exposições entre os anos 1993 e 1994, após uma discussão entre os cidadãos, a Câmara Municipal, o Governo Regional e a Emscher Park International Building Exhibition.

Montagem da instalação "Big Air Package" no Gasômetro de Oberhausen. © Wolfgang Volz, 2013 Christo
Montagem da instalação "Big Air Package" no Gasômetro de Oberhausen. © Wolfgang Volz, 2013 Christo

O gasômetro de Oberhausen, originalmente construído em 1927 - mas reconstruído em 1949 após bombardeios e incêndios -, foi desativado na década de 80 e hoje integra rotas de herança industrial do Vale do Ruhr e da Europa (ERIH). O local abriga instalações artísticas temporárias site specific que se beneficiam das grandes dimensões do gasômetro, como a "Big Air Package" de Christo, em 2013 e a “320° Licht” do URBANSCREEN em 2014.

© Wolfgang Volz, 2013 Christo
© Wolfgang Volz, 2013 Christo

Os concursos de projeto são uma boa oportunidade para investigar as possibilidades para adaptação de uma estrutura, ao invés da sua demolição. Este foi o caso de uma competição realizada em 2005, para os Gasômetros de King’s Cross, em Londres. O projeto vencedor, do escritório Wilkinson Eyre Architects, foi realizado em 2017, e manteve a estrutura metálica vitoriana preexistente envolvendo os novos edifícios residenciais. O “esqueleto” remanescente é comum em muitos dos gasômetros desativados no Reino Unido.

Cortesia de Wilkinson Eyre Architects
Cortesia de Wilkinson Eyre Architects

As possibilidades de uso e de intervenções para gasômetros desativados são inúmeras e a adaptação da estrutura existente pode ter impactos positivos em termos econômicos, culturais, paisagísticos e urbanísticos. Na definição do seu futuro, tais possibilidades se apresentam como alternativas à demolição baseada unicamente na hiper-valorização do terreno onde estão localizados, e atuam de forma a manter uma herança industrial das localidades onde estão inseridos.

Notas:

[1] Gasholders: A History. Squire Energy. Disponível em: <https://squireenergy.co.uk/gasholders-a-history/>
[2] JOHNSON, Daniel. Gasometers: a brief history. The Telegraph. Disponível em: <https://www.telegraph.co.uk/finance/newsbysector/energy/oilandgas/10473071/Gasometers-a-brief-history.html>

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Sobre este autor
Cita: Susanna Moreira. "Resgatando o passado: que futuro podem ter os gasômetros desativados?" 27 Mar 2020. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/936147/resgatando-o-passado-que-futuro-podem-ter-os-gasometros-desativados> ISSN 0719-8906

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