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O custo ambiental dos materiais mais usados na arquitetura

O custo ambiental dos materiais mais usados na arquitetura

Para todos nós - arquitetos, urbanistas e também cidadãos - que estamos envolvidos com a construção de edifícios e cidades, deve prevalecer um profundo sentimento de responsabilidade, de estar ciente dos impactos que nossos projetos possam causar em relação ao agravamento da emergência climática, não apenas em sua construção mas principalmente na manutenção de tais edifícios. Considerando que 36% de toda a energia global é utilizada para a construção e manutenção de edifícios e que 8% do total de emissões de gases do efeito estufa resultem dos processos de produção do cimento, a comunidade global de arquitetos deve sentir-se profundamente responsável uma vez que seus atos podem contribuir ou minimizar tais mudanças.

Historicamente, a indústria da construção civil é dominada pelo uso copioso de três materiais fundamentais: concreto, aço e madeira. Qualquer tentativa que empreendamos em busca de reduzir o impacto ambiental decorrente da construção de nossos edifícios e cidades, deverá envolver – inevitavelmente – uma revisão dos nossos processos de fabricação, produção e utilização destas três principais matérias-primas. Nesta perspectiva, resolver observar mais de perto os custos e benefícios ambientais incorporados à estas matérias-primas que dominam a industria da construção civil à séculos.

Concreto

via Shutterstock
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Atualmente, mais de 4 bilhões de toneladas de cimento são produzidas todos os anos, liberando mais de 1,5 bilhão de toneladas de CO2. A China é o maior produtor de cimento e não surpreendentemente, o maior emissor de CO2 relacionado ao cimento, seguido pela Índia, pela UE e pelos EUA. No entanto, a estabilização do consumo de cimento na China, por sua vez, fez com que a produção global de cimento finalmente parasse de crescer em 2014, cravando a incrível marca de 4 bilhões de toneladas anuais. À medida que o mercado da construção civil cresce os olhos e avança em direção ao Sudeste Asiático e à África subsaariana, prevê-se que a produção de cimento tenha que aumentar em 25% até 2030 para manter o ritmo esperado.

Mas quais são os verdadeiros motivos que fazem do cimento um vilão tão assustador? A culpa, frequentemente é associada ao processo básico de extração e transporte da matéria prima, mas vale ressaltar que isso representa apenas 10% das emissões totais atribuídas à industria do cimento. Conforme salientado pelo relatório da BBC, mais de 90% das emissões do setor podem, de fato, ser atribuídas ao processo de fabricação do “clínquer” - o elemento-fundamental do concreto.

Para o processo de fabricação do clínquer, as industrias utilizam uma espécie de forno rotativo aquecido a mais de 1400 graus centígrados, o qual é alimentado com uma mistura extraída de calcário moído, argila, minério de ferro e cinzas. O resultado da combustão de tal mistura é dividido em óxido de cálcio e CO2, liberando dióxidos de carbônico para a atmosfera no momento em que o clínquer é então produzido. A matéria prima do concreto é então resfriada, moída e misturada com calcário e gesso para criar o elemento mágico do cimento, o qual está pronto para ser transportado pelo mundo afora.

Aço

via Shutterstock
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A indústria do aço, por sua vez, é responsável por cerca de 7% a 9% do consumo direto de combustíveis fosseis no mundo. Isso significa a produção de uma tonelada de aço é responsável pela emissão de mais de 1,8 toneladas de CO2. O aço não é apenas um material fundamental para a indústria da construção civil, além disso ele é uma das commodities mais comercializadas no mundo depois do petróleo. Pensando nisso, a industria do aço – e mais uma vez a China como a principal produtora – estão sendo pressionadas à incorporar soluções alternativas que possam minimizar a pegada devastadora dos processos diretos e indiretos da fabricação do aço.

Semelhante ao processo de produção do cimento, a fabricação de aço depende do calor gerado por processos de combustão a temperaturas extremamente altas. A utilização de combustíveis fósseis nos processos de fabricação do aço é algo que pouco mudou desde a instituição da industria durante a revolução industrial no início do século XIX. O processo de redução do minério de ferro em metal líquido depende da utilização de combustíveis pesados derivados do carvão. Inevitavelmente, o resultado disso são emissões de quantidades estratosféricas de dióxido de carbono.

Em entrevista recente ao Financial Times, Nicole Voigt, do Boston Consulting Group, dá algumas opções que poderiam minimizar o impacto ambiental do aço. “Existem duas maneiras de reduzir a pegada de carbono no processo de produção do aço. Uma é minimizar as emissões de CO2 nos processos de fabricação, utilizando outros materiais – que não sejam derivados de carbono – como agente redutor. Outra possibilidade é usar a tecnologia para fixar o carbono emitido no final do processo, armazenando ou dando um outro destino que não o despejo direto na atmosfera. A questão parece ser apenas a escolha de qual caminho devemos seguir - ainda que sigamos debatendo esta questão, devemos concordar que [a última opção] é a mais viável.

Madeira

via Shutterstock
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quatro diferenças importantes entre estes três materiais: em primeiro lugar, a madeira é o único material dentre os três que é renovável; segundo, a madeira precisa apenas de uma pequena quantidade de energia para ser extraída e reciclada em comparação com aço e concreto (mas a implementação de seu potencial não é tão desenvolvida até o momento); em terceiro lugar, a madeira não produz resíduos até o final da sua vida, uma vez que pode ser reutilizada muitas vezes em vários produtos ou ser utilizada como combustível e; quarta, a madeira absorve grandes quantidades de carbono da atmosfera, - uma árvore pode conter uma tonelada de CO2 - e o carbono absorvido permanece incorporado enquanto a madeira estiver sendo utilizada.

A baixa pegada de carbono das construções de madeira combinado como o desenvolvimento de novas tecnologias impulsionaram o desenvolvimento da industria da madeira voltada à construção civil ao longo dos últimos anos. Madeira laminada colada (Gluelam), Madeira laminada cruzada (CLT), Laminado Veneer Lumber (LVL), Laminado Strand Lumber (LSL) e Parallel Strand Lumber (PSL) são apenas alguns dos produtos à base de madeira que estão cada dia mais acessíveis e amplamente utilizados pela industria da construção civil, estabelecendo a madeira como uma das principais alternativas ao concreto e o aço.

Entretanto, estruturas de madeira não estão livres de críticas. Usinas de biomassa, que utilizam elementos de madeira como base para a produção de combustível e calor, se apresentam como uma alternativa mais sustentável à produção de energia através do consumo de combustíveis fósseis. É preciso que sejamos conscientes que a má gestão da matéria-prima poderia provocar um aumento considerável dos desmatamentos e da degradação do solo. Ainda hoje, muitas usinas de biomassa ainda dependem de combustíveis fósseis para serem economicamente viáveis. É fato que a queima de biomassa também produz gases de efeito estufa, como monóxido de carbono e dióxido de carbono, os quais deveriam ser capturados e reciclados para que a biomassa pudesse sim ser uma alternativa mais convincente ao petróleo e ao gás natural. 

Sobre este autor
Cita: Walsh, Niall. "O custo ambiental dos materiais mais usados na arquitetura" [The Carbon Cost of Key Raw Materials in Architecture] 24 Fev 2020. ArchDaily Brasil. (Trad. Libardoni, Vinicius) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/933552/o-custo-ambiental-dos-materiais-mais-usados-na-arquitetura> ISSN 0719-8906

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