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Conselhos práticos para o futuro da habitação social na América Latina

Conselhos práticos para o futuro da habitação social na América Latina

A série de artigos de Nikos A. Salingaros, David Brain, Andrés M. Duany, Michael W. Mehaffy y Ernesto Philibert-Petit, sobre o estudo da habitação social na América Latina, nesta ocasião, os autores apresentam conselhos práticos para a realização de projetos que abordem novas soluções para o futuro da habitação social. 

10. Sugestões práticas para fazer projetos bem-sucedidos

Novas soluções para o futuro da habitação social

Tendo discutido como a biologia humana determina marcantemente a maneira com que as pessoas interagem com seu entorno (KELLERT et al., 2008), introduzimos uma abordagem para o projeto do ambiente urbano que estabelece uma conexão positiva com o usuário. Ao mesmo tempo, expusemos as metodologias usuais do planejamento e da arquitetura como sendo responsáveis por desconexões. Por mais inacreditável que isso possa parecer, projeto e construção, em todo mundo, não têm aplicado tipologias que garantam o bem-estar do usuário, apesar de resultados conhecidos sobre como isso pode ser atingido. Nossos primeiros artigos nesta série, portanto, resumiram o conhecimento disponível em uma estrutura prática para auxiliar usuários a participar do projeto de seus próprios ambientes. Mesmo naqueles casos em que a participação do usuário é limitada ou, ainda, excluída, insistimos que o projeto necessita basear-se em princípios universais compartilhados. De outra forma, o ambiente construído sempre será percebido como hostil à vida.

O desafio que enfrentamos para reformar a prática de construção das cidades é enorme, e as soluções envolverão muitos mecanismos inovadores diferentes. No momento, não há indivíduo responsável pela garantia da adaptabilidade social/psicológica do tecido urbano construído; e assim introduzimos esta necessidade. Não se pode deixar tal tarefa ao governo, ou ao construtor, ou mesmo ao arquiteto, pela simples razão de que eles não estão treinados para essa tarefa e, ainda, esses profissionais e governantes têm conflitos de interesse que os impede de perseguir tal desafio.

© Pedro Vannucchi
© Pedro Vannucchi

Outro ponto está relacionado ao uso de materiais “amigáveis”. Não se trata de uma escolha estética, mas vai diretamente ao cerne da questão se uma estrutura construída será percebida como “amigável” segundo suas propriedades biofílicas (KELLERT et al., 2008). Há uma aceitação geral de certa estética industrial peculiar que dita o uso de materiais high-tech, mesmo em situações em que estes são psicologicamente hostis e absurdamente onerosos. Mas por causa de uma resistência ideológica, esta prática nunca é questionada.

A mesma “camisa de força” ideológica impediu o uso de padrões urbanos e construtivos desenvolvido ao longo de gerações na civilização humana e, portanto, perfeitamente adaptados à vida (ALEXANDER et al., 1977; SALINGAROS, 2005). O preço pelo fanatismo ideológico é o desastre urbano, que esperamos reverter por meio da educação. Discutimos como adaptar a produção em massa a necessidades individuais locais, abandonando os modelos de produção industrial rudes do começo do século XX, tão amados por arquitetos acadêmicos e pela indústria. Usuários destroem rapidamente soluções urbanas permanentes que são percebidas como desumanas (de acordo com Biofilia, e não opiniões pessoais), enquanto tecidos urbanos construídos de materiais mais econômicos podem durar gerações, pois são continuamente regenerados. Neste caso, o fluxo de recursos é crucial, e destacamos o foco em escalas menores. Regeneração é determinada pela livre disponibilidade de recursos para inúmeras pequenas despesas, mas este mecanismo é barrado pela concentração de recursos em fontes únicas.

Finalmente, qualquer esquema para construir novas cidades e reparar cidades existentes precisa operar nas fronteiras de sistemas legais e administrativos existentes. Discutimos as múltiplas questões complexas que necessitam ser trabalhadas, encorajando o compromisso sempre que possível, e identificando pontos que tornam o compromisso prejudicial aos resultados. As bases legais da propriedade, do financiamento, da construção, etc. necessitam ser repensadas, e, de acordo com Christopher Alexander (ALEXANDER, 2001-2005), já trilhamos os primeiros passos nesta direção. A diminuição da burocracia requer a cooperação do governo, o qual precisa ser primeiramente convencido do potencial para melhorias drásticas sobre práticas existentes a partir de apenas mudanças menores.

© Ana Cecilia Garza Villarreal
© Ana Cecilia Garza Villarreal

O papel do arquiteto / coordenador

Nossa experiência com a construção de projetos nos leva a propor uma regra administrativa. É a de fazer um único indivíduo responsável por conseguir a “humanidade” de um projeto individual. O governo ou a organização não-governamental que financia o projeto irá apontar a pessoa que vai supervisionar o desenho e a construção e que vai coordenar a participação dos usuários. Nós sugerimos que esta tarefa não seja desempenhada por um empregado da burocracia governamental ou da empresa construtora, pela simples razão que esta pessoa não tem a necessária especialização no processo de desenho que nós estamos defendendo aqui. Idealmente, seria uma pessoa que tivesse um entendimento profissional dessas questões e que tivesse um sentido de responsabilidade profissional independente para supervisionar a apropriada implementação.

Este arquiteto / gerente de projeto será o responsável por fazer a diferença entre criar uma aparência militar / industrial versus um projeto construído final que seja humano e que propicie um sentimento de vida. De novo: isto não é uma questão de estética (que seria imediatamente descaracterizado pela agência financiadora como irrelevante para as pessoas pobres), mas de sobrevivência básica. Um projeto percebido pelos seus habitantes como hostil será eventualmente destruído por eles, e ao mesmo tempo destruirá, neles, o próprio sentido de si mesmos.

Cortesía de Arquitectura Expandida
Cortesía de Arquitectura Expandida

Tanto quanto nós acreditamos em participação, tem sido mostrado que as pessoas que necessitam de habitação social não têm, sempre, a capacidade organizativa para trabalharem juntas e terminarem o projeto. O seu aporte é absolutamente necessário nos estágios de planejamento, mas aqui nós estamos falando de alguém “de fora” que será responsável junto aos residentes e que irá garantir o bem-estar quando forem pressionados a cortar custos e alterar o projeto de construção.

Uma parte crucial no papel do gerente de projetos tem que ser definida em termos da facilitação do processo em vários níveis. O gerente terá com frequência, não apenas que encorajar o engajamento no trabalho, mas também ensinar às pessoas que não estão acostumadas a ele, e que podem não ter a habilidade e o hábito de uma ação efetivamente participativa. Os participantes podem vir para o processo com uma profunda descrença em qualquer método que dependa do esforço dos outros. Parte do desfio em um novo assentamento será, então, criar um ordeiro, confiável e efetivo processo colaborativo que engaje a população — mas estas pessoas podem estar traumatizadas devido a experiências com re-assentamentos anteriores e com violência social. Não se pode assumir que a comunidade pré-existente já tivesse estabelecido normas adequadas e comprometimento requerido para esse tipo de engajamento. Ao gerente vai ser requerido um papel que inevitavelmente envolverá uma parte do que é chamado de “construir a comunidade”, organização e treinamento em liderança.

Cortesía de Mi Parque
Cortesía de Mi Parque

Quando o projeto estiver completo, arquiteto / gerente do projeto deverá ter um pagamento pelo seu trabalho, ajustado pelo grau de quanto o projeto estiver bem-feito. O depoimento dos residentes sobre o processo, ao invés das declarações dos críticos de arquitetura deve ser a base para julgar esse sucesso. Não é impossível que um projeto que se mostrará sustentável e de sucesso pelas décadas futuras seja julgado e condenado pelas mentes estreitas dos ideólogos como parecendo antiquados e /ou muito parecidos com favelas, para permitir conforto político. Muitas pessoas no poder fixaram a visão de que uma cidade deve ser  “limpa, industrial e moderna” — baseados em irrelevantes conceitos científicos fora de moda — e referem-se a estes modelos utópicos quando julgando um ambiente vivo.

Nós estamos, na verdade, defendendo uma abordagem de-baixo-para-cima, com um nível intermediário, estritamente administrativo, do tipo de-cima-para-baixo. A não ser que uma clara responsabilidade e um sistema administrativo autônomo sejam colocados, o que nós queremos ver acontecer não vai jamais ocorrer. A burocracia impessoal do governo nunca vai se incomodar em fazer um lugar vivo e humano, porque eles podem com muito mais facilidade seguir regras não-criativas de modulação e combinação mecânica. O grupo que constrói não é responsável: ele quer terminar o seu trabalho no menor tempo e com as menores alterações possíveis. Os residentes não são suficientemente poderosos para garantir um ambiente vivo. Na realidade da construção, um projeto requer um defensor com o poder de coordenar todas estas forças.

Versão anterior deste artigo foi apresentada por NAS como uma palestra no Congresso Ibero-Americano de Habitação Social, Florianópolis, Brasil, 2006. Publicado em URBE: Revista Brasileira de Gestão Urbana, Vol. 3 No. 1 (Janeiro/Junho 2011), páginas 125-136.

Tradução para Português: Lívia Salomão Piccinini.

Bibliografia

  • Christopher Alexander (2001-2005) The Nature of Order: Books One to Four (Center for Environmental Structure, Berkeley, California).
  • Christopher Alexander, S. Ishikawa, M. Silverstein, M. Jacobson, I. Fiksdahl-King & S. Angel (1977) A Pattern Language (Oxford University Press, New York).
  • Stephen R. Kellert, Judith Heerwagen & Martin Mador, Editors (2008) Biophilic Design: the Theory, Science and Practice of Bringing Buildings to Life (John Wiley, New York).
  • Nikos A. Salingaros (2005) Principles of Urban Structure (Techne Press, Amsterdam, Holland). New US printing, Sustasis Press, Portland, Oregon, 2014; Asian Edition, Vajra Books, Kathmandu, Nepal, 2014.

Sobre este autor
Cita: Nikos A. Salingaros, David Brain, Andrés M. Duany, Michael W. Mehaffy & Ernesto Philibert-Petit. "Conselhos práticos para o futuro da habitação social na América Latina" [Consejos prácticos para el futuro de la vivienda social en Latinoamérica] 28 Jun 2019. ArchDaily Brasil. (Trad. Baratto, Romullo) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/919958/conselhos-praticos-para-o-futuro-da-habitacao-social-na-america-latina> ISSN 0719-8906

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