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Game of Thrones: política e fundação urbana em cidades de ficção

  • 12:00 - 13 Janeiro, 2017
  • por Manuel Saga
Game of Thrones: política e fundação urbana em cidades de ficção
Game of Thrones: política e fundação urbana em cidades de ficção, Kingslanding- Desembarco del Rey. Game of Thrones (2011). Image © HBO
Kingslanding- Desembarco del Rey. Game of Thrones (2011). Image © HBO

O que diferencia uma cidade de uma aldeia? Qual é a distinção entre esses dois grupos de edifícios e ruas, aparentemente similares entre si? Por que se reconhece a origem neolítica da aldeia enquanto a primeira cidade continua sendo um mistério? Mesmo que aldeia e cidade possam ser consideradas similares, a cidade possui um elemento único e inovador que a diferencia: a cidadania, a civitas.

Enquanto a aldeia não passava de um sistema urbano eficiente para a convivência de um grupo de pessoas, a fundação de uma cidade implica a instituição de uma ideia muito concreta de sociedade, de um compromisso entre indivíduos para ordenar o mundo a partir de critérios compartilhados.

A civitas é precisamente essa ideia de ordem social, o conjunto de tradições, leis, princípios e crenças que dão origem à comunidade civil. Por uma lado, a urbe é a forma urbana é especialmente dedicada a institucionalizar essa ideia da sociedade. Observe que estamos falando de ruas ou casas, mas sim do momento da instituição, isso é, da fundação da cidade. Como diria Fustel de Coulanges, enquanto a civitas é um patrimônio imemorial acumulado ao longo dos séculos, a urbe é formada em um dia. Enchê-la de ruas, casas e lojas é apenas uma consequência.

Como afirmado por Hermann Minkowski em "Vers une Cosmologie, Fragments Philosophiques" (Paris, 1967, p.149), "no início, o cenário era um oceano em movimento. É o futuro. A personalidade humana se desprende dessa evolução e se afirma perante ela. As pessoas fazem isso como podem, ou seja, moldando o ambiente à sua imagem, de acordo com algumas características tanto individuais quanto gerais".

Neste sentido, a cidade não é uma habitação, mas um dispositivo cosmogênico, que explica a origem da ordem - cosmos - na desordem - caos. As instituições políticas - polis - são as garantias do funcionamento deste dispositivo e das leis que o regem. Portanto, a sua existência afeta a forma urbana fundamental ao mesmo nível que as civitas afetam a urbe. Já no século IV a.C. Aristóteles identificou esse fato e apresentou o ato fundador como uma prática vinculada e sujeita ao regime político. Coulanges provavelmente iria propor um debate sobre se a polis é um elemento posterior, mais complexo, não tão essencial.

Em relação aos lugares fortificados, não convém o mesmo a todos os regimes. A acrópole, por exemplo, é útil para um regime oligárquico ou monárquico; ao regime democrático convém a planície, e ao aristocrático nenhuma dessas coisas, mas sim várias fortificações.

Aristóteles, Política, II, 8, 1.

Joseph Rykwert propôs na década de 60 que todas essas fundações políticas e simbólicas partilham certos elementos comuns. Do Vale do Eufrates a Etruria, Grécia, Roma, China, Índia, África subsaariana, a América do Norte indígena e da América Latina pré-colombiana, cada fundação tem representado uma ordem cósmica e possuiu um centro institucional e religioso, algumas direções principais, um limite, portas e um labirinto interno. Este artigo não tem ilustrações, mas os croquis que eu gostaria de lhe mostrar é esse mesmo que você já está desenhando em sua cabeça. Centro, ruas, fronteiras, portas e labirinto. É isso. Agora, o único que distancia seu ato mental de uma fundação urbana de verdade é a aceitação incondicional de que esses elementos constroem na terra a ordem do universo.

Mosaico romano de finales de la República (s. I a.C.) que muestra un laberinto fortificado. Rykwert,  Joseph. La idea de ciudad : antropología de la forma urbana en el mundo antiguo. Madrid: Hermann  Blume, 1976. p. 166.
Mosaico romano de finales de la República (s. I a.C.) que muestra un laberinto fortificado. Rykwert, Joseph. La idea de ciudad : antropología de la forma urbana en el mundo antiguo. Madrid: Hermann Blume, 1976. p. 166.

Tanto para a aula de história, história no sentido de que esses ritos e instituições parecem estar muito distantes das metrópoles difusas e espalhadas que a maioria habita hoje. Se você tiver sorte suficiente de viver em uma cidade pequena, ainda assim está conectado à rede de redes, ao pântano líquido de dados e vetores que governa o mundo. Parece que a exceção de alguns locais específicos como centros patrimoniais europeus ou as praças americanas Bolivares, a cidade contemporânea é mais um sistema de elementos agregados do que um gesto cósmico de ordem. Isto é assim, claro ... Enquanto você ignorar a outra metade da produção urbana atual: as cidades de ficção.

The Banner Saga 2 (2016). Image © Stoic Studios
The Banner Saga 2 (2016). Image © Stoic Studios

A literatura, teatro, cinema e videogame são artes cheias de cidades. Desde o Antigo Testamento, até A Song of Fire and Ice (1996), as obra de ficção se desenvolvem em contextos muitas vezes urbanos, cidades que pela sua natureza não têm a complexidade deleuziana da cidade contemporânea. Cada uma das cidades da obra de George R. R. Martin representa uma posição política e uma forma específica de enfrentar o mundo. Não é a toa que se trata de um desses "livros com mapas", gênero que poderia ser considerado fundado por Utopia em 1516.

A abertura da série da HBO Game of Thrones é um grande acerto nesse respeito. Na falta de um mapa físico como o que acompanha o livro, a abertura de GoT é o mapa em si, é o território. Através de uma infografia abstrata e estilizada, o espectador percorre, uma a uma, as principais cidades de cada capítulo.

Kingslanding está situada em uma ribanceira coberta pela grande fortaleza real, quanto mais abaixo você vive dela, mais baixo está na escala social: uma homenagem a Aristóteles. O centro de Winterfell é externo à fortaleza e tem forma de uma árvore, pois é uma cidade que homenageia os antigos deuses. The Wall não é a "cidade-muro", mas sim a "cidade-porta", aquela que decide o que fica dentro da ordem social e o que é deixado de fora, o "selvagem". Pentos é a cidade "do outro lado" e é apresentada com base no seu confronto com Kingslanding. É a margem oposta, o refúgio do "outro" personificado pelos últimos vestígios da casa Targaryen e seus aliados Dothraki.

Todas essas cidades são urbes caracterizadas para abrigar civitas singulares, imaginadas, mas vinculas à nossa própria história. Seus elementos fundacionais são poderosos, básicos mas reveladores. Suas formas institucionalizaram ordens políticas muito claras que o espectador pode ler desde o primeiro frame. Deste modo, a prática clássica de fundar cidades como mensagens de ordem sobrevive hoje nestas cidades de ficção. Por muitos séculos, Roma ainda vive.

Uma trincheira foi cavada
até o solo firme,
e foram depositados frutos no fundo,
junto com terra dos campos vizinhos.
Tapou-se de novo o buraco,
e um altar foi posto em cima.
E sobre esse novo lugar
acendeu-se o fogo.

Ovidio, Fastos, IV, 819.

Cita: Saga, Manuel. "Game of Thrones: política e fundação urbana em cidades de ficção" 13 Jan 2017. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/802909/game-of-thrones-politica-e-fundacao-urbana-em-cidades-de-ficcao> ISSN 0719-8906