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Participantes da Trienal de Lisboa escrevem cartas ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa

Participantes da Trienal de Lisboa escrevem cartas ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa
Participantes da Trienal de Lisboa escrevem cartas ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Galeria dos Paços do Concelho. Image © CML
Galeria dos Paços do Concelho. Image © CML

A Trienal de Arquitetura de Lisboa, em sua quarta edição, além das exposições e instalações principais, conta com um uma ampla série de eventos satélite que conformam o escopo geral da Trienal. Entre estes eventos está a exposição "Cartas ao Sr. Presidente", que, numa versão lisboeta da exposição originalmente criada pelo Storefront of Art and Architecture, reunirá cartas dos participantes da 4ª edição da Trienal dirigidas ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa a curadoria da mostra é de Ivo Poças Martins.

O objetivo desta coleção de propostas, contribuições e pensamento é se tornar foco de uma discussão entre a arquitetura e as estruturas governativas. Segundo a organização, esta será uma oportunidade para apresentar e debater pensamentos relevantes para a área metropolitana produzidos no âmbito do programa de The Form of Form.

A exposição que acontece na Galeria dos Paços do Concelho inaugura no próximo dia 8 de Outubro às 17h30 com um debate que reúne o curador Ivo Poças Martins, Patrícia Robalo e Pedro Pitarch.

A organização da quarta Trienal compartilhou conosco as cartas de Mimi Zeiger, Tiago Mota Saraiva, Bernardo Rodrigues, Pedro Pitarch e Baukuh. Leia-as, na íntegra, a seguir.

Mimi Zeiger, crítica, curadora e editora

© Monica Nouwens/ Instagram: monicanouwens
© Monica Nouwens/ Instagram: monicanouwens

Prezado Prefeito Fernando Medina,

Algumas semanas atrás, minha amiga fotógrafa holandesa, Monica Nouwens, enviou-me uma fotografia de um acampamento sem-teto no centro de Los Angeles. L. A. Skid Row tem sido o local de assentamento informal e temporário devido ao clima ameno e fácil acesso a serviços de apoio, contudo a fotografia de Monica captura uma condição mais enraizada – um barraco improvisado contra uma cerca de arame farpado e um cavalinho de pau. Para o morador isso não é uma foto, é um lar.

Monica tem documentado L.A. durante anos. Normalmente, sua maneira é imperturbável já que anda à noite. Mas, recentemente, ela sentiu uma mudança. Ela é mais cautelosa, mais consciente de que estes acampamentos são espaços privados defensáveis. Desde o verão de 2016, mais de 44.000 homens, mulheres e crianças de todos os estilos de vida dormem nas ruas de Los Angeles - nos carros, marquises, barracas e abrigos improvisados.

O prefeito Garcetti chamou-o de estado de emergência. Estas vidas, por assumirem o espaço público, chocam-se contra bairros, distritos comerciais e novos empreendimentos. Tudo resistem à invasão. Esta tensa relação entre precariedade e espaço público não é exclusiva de LA, provavelmente é tão familiar lá quanto em Lisboa ou em qualquer lugar onde há uma população transitória renegada pelas soluções habitacionais permanentes, sejam eles refugiados, migrantes, veteranos, mentalmente doentes ou trabalhadores pobres.

Nos últimos anos, em conferências de política urbana, conferências entre prefeitos e placemaking, tem havido muita discussão em como tornar as cidades vibrantes e saudáveis, o que trouxe algumas amenidades agradáveis à tona: ciclovias e bicicletas compartilhadas, pequenos parques de organização popular, parklets e vias verdes. No entanto, esta versão da vida pública confronta, muitas vezes, diretamente com a carência da cidade. O que é bem intencionado se torna preocupante. Um homem desabrigado dorme em um parklet. Uma mulher sem cartão de crédito não pode alugar uma bicicleta.

E se nós projetamos cidades resistentes em lidar com as necessidades das populações temporárias? E se o fato de nossa paisagem urbana aceitar que os fatores políticos e econômicos dirijam o deslocamento local e global devesse ser reconsiderado agora, e não um problema para ser deixado de lado ou simplesmente esquecido? A cidade de Veneza, Califórnia está considerando áreas de estacionamento de veículos durante a noite, equipadas com instalações sanitárias. Portland e Seattle estão experimentando pequenas vilas de casas que abrigam até sessenta pessoas. Habitação leva tempo, mas medidas provisórias que reconsiderem o espaço público e acomodem algum uso privado poderiam ajudar a descriminalizar pessoas sem-abrigo e amenizar as tensões entre as pessoas com e sem um teto sobre suas cabeças.

Atenciosamente,
Mimi Zeiger

Tiago Mota Saraiva, arquiteto

Caro Sr. Presidente da Câmara Municipal de Lisboa Fernando Medina,

Uma cidade em ruína, envelhecida e em ruptura demográfica não é o contrário de uma cidade apinhada de turistas e com os seus edifícios antigos a serem convertidos em hotéis. Não se deve opor as duas realidades como se se tratasse de uma escolha. Como se estivéssemos perante o Mau e o Bom.

No caso de Lisboa é difícil não o ver como parte do mesmo processo. A primeira fase baixou os preços dos imóveis, conduziu à sua degradação e abandono. A segunda leva a que seja caro reabilitar, exclui investimentos que não sejam de rápido retorno e condena o Estado a criar condições de excepção. Não é por acaso que o boom do turismo em Portugal sucede nos anos da troika.

Não é o produto de uma política de cidade mas da precarização da ação do Estado. Sendo certo que a atividade econômica gerada por este processo ainda em curso tem gerado postos de trabalho, receitas e uma significativa reabilitação dos imóveis dos centros de Lisboa, também é certo que esse processo foi sendo realizado com uma ação marginal do Estado, tantas vezes, demitindo-se de exercer as funções que queremos que exerça. Cumpre-nos agir sobre este processo. Não se trata de barrar a entrada de turistas, mas de travar a especulação financeira que está a expulsar os habitantes da sua cidade.

O que se pode fazer no plano municipal?

– Suspensão do licenciamento de novas unidades hoteleiras até que haja uma avaliação concreta sobre o que existe, onde fazem falta e onde é que se quer que nasçam novas unidades;
– Levantamento rigoroso de fogos privados devolutos ou a necessitar de obras e intimação para a realização de obras ou aumento para a taxa máxima de IMI;
– Criação de um fundo municipal para obras de reabilitação de fogos em regime de habitação própria permanente;
– Criação de um programa de bolsas – do tipo BIPZIP – de carácter plurianual que apoie iniciativas de base cidadã, cooperativas e associações de moradores até aos 300.000€ (100.000€/ano) a desenvolver e executar programas de reabilitação urbana e/ou a desenvolver iniciativas de base local com as quais possam concorrer a financiamentos comunitários para a reabilitação urbana ou todas as matérias inscritas na Agenda Urbana para a UE aprovada a 30 de Maio deste ano;
– Negociação com a banca para que coloque no mercado de arrendamento a custos controlados os seus fogos vazios e para que, enquanto proprietário, não se transforme num agente promotor da degradação e especulação da cidade;
– Criação de mecanismos de proximidade com cidadãos com mobilidade reduzida em maior articulação com os tradicionais apoios da SCML;
– Desenvolvimento de mecanismos de participação que implique a co-decisão e co-responsabilização dos habitantes da cidade;
– Desenvolvimento de política de articulação inter-municipal, metropolitana e regional no âmbito do transporte público colocando-o ao serviço das populações, por preços mais acessíveis e conferindo-lhe os meios para que possam operar;
– Criação de mecanismos públicos de controlo de plataformas de facilitação de alojamento local;
– Desenvolvimento da ideia de turista responsável e valorização de práticas de turismo sustentável para a cidade;
– Apoio direto e de proximidade a situações de despejo ao abrigo da lei, partindo da ideia que Lisboa não pode perder mais habitantes; – Melhoria das condições de circulação pedonal, ciclável e para cidadãos com mobilidade reduzida a partir da receita da taxa turística;
– Limitação à circulação de tuk-tuk's e substituição por sistemas não motorizados em zonas planas;
– Disponibilização de edifícios e fogos municipais para projetos específicos, de cariz social, cultural ou artístico que se enquadrem dentro dos objetivos políticos e urbanos definidos pelo município e que sejam capazes de promover a reabilitação do edificado público.

Creio que a partir de muitas das hipóteses listadas, poder-se-ia começar a construir um programa mínimo de enriquecimento e valorização de iniciativas de base, no respeito por todos os habitantes da cidade (moradores, trabalhadores ou turistas), a partir da ideia que o cidadão deve estar no centro das decisões fundamentais para a cidade e não as entidades com capacidade financeira.

Com os melhores cumprimentos pessoais,
Tiago Mota Saraiva, arquiteto

Bernardo Rodrigues, arquiteto

Prezado Prefeito Fernando Medina
Câmara Municipal de Lisboa

Máquina para Ressentimento Urbano – contos de ódio perdidos há muito tempo - agora revividos em sua cidade.

Outro dia eu e meus amigos - Titus de Londres e Nuno de Açores - fomos com as crianças à piscina do Tamariz para comemorar o aniversário de 12 anos do mais velho. Que lugar encantador! E as estradas principais eram todas muito bonitas e tão bem organizadas. A chuva foi o único problema, mas dois caras açorianos e um alemão que vive Londres estão acostumados a tomar banho de sol na névoa úmida e fria, por isso, não importava.

Você percebe que a diversidade de línguas, nacionalidades e tons de pele estão de acordo com o caldeirão cultural comemorado em Lisboa, sempre receptiva, e que agora está focada em levar para o novo milênio aqueles brilhantes, super valorizados e bem educados à mesa. Bom trabalho, Lisbonários.

Tenho certeza, no entanto, que você sabe tudo sobre os últimos contos de ressentimento e ódio em Londres que levaram, em uma série distorcida de “absurdidades sociais”, ao Brexit. A divisão do país em dois setores polarizados revive as dores seculares, tornando uma nação, uma vez vibrante, urbana, erudita¹ em um poço medieval de economias e finanças incertas ao longo da escalada de todos aqueles sentimentos macambúzios, levando, como nós falamos, à uma ameaça sociológica da intolerância revisitada sob céus mais pesados ​​da Europa, como o Sr. Dante (o escritor, mesmo antes do perito étnico) fantasiosamente descrito abaixo dos nove anéis do inferno. Ao longo das sete colinas de Lisboa, os intimadores interiores de palácios abandonados e deteriorados deixam as fachadas anunciarem uma nova luxuria sem alma concretas, perdidas em todos aqueles interiores de madeira feitos manualmente, além de escadas e painéis. Eles estão sendo vendidos e enviados para os ricos na Alemanha, Inglaterra ou França? Muito ganho fiscal, mais do que o equilíbrio comercial de exportações, está sendo creditado, tenho certeza. Conselheiros urbanos Dixit, valem uma libra de carne humana.

Hoje, na zona central de Londres 1 e 2, se você vender a propriedade para os milhões sagrados de um rapaz russo, chinês ou árabe, você não pode comprar uma similar na mesma rua. Isso e a AirB'n'Bzação de cada pequeno imóvel próximo da linha de metrô, expulsou das comunidades internas da metrópole há muito estabelecidas, o jovem, o velho, a burguesia, os estudantes de classe média e os moradores. O sangue da vida e propósito de uma cidade. Daí a dificuldade, desconfiança, ressentimento, a propagação dos discursos racistas e misantrópicos (eu gosto da palavra metamorfosear, não?) A lição de Londres para Lisboa é estampada no arco da Rua Augusta com a inscrição que Dante deu a porta do inferno "Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate" (Abandone toda a esperança, você que entrar aqui).

Talvez a ira de Deus seja mais suave com você e poupe-nos de um terremoto, tsunami e fogo autárquico, no século XXI, como penalidade moral, provavelmente, no mais santo dos dias: o dia do agricultor. O debate filosófico contemporâneo em torno do primeiro grande terremoto AirBnB de Lisboa, em 1755, foi de uma abordagem cândida de Voltaire, ao argumento da favela de Rousseau, às causas naturais de Kant, todos os mapeamentos de Adorno e Walter Benjamin que deram origem as categorias científicas e sociológicas. Provavelmente, não hoje. Claro que temos Bernard Henri Levy, Slavoj Zizek, Hugo Gilberto, Carlos Daniel e Isabel Jonet. Talvez esse doce companheiro de supermercados Pingo Doce ofereça de publicar. E, então, podemos ir novamente para o futuro, soprando nossos narizes em nossos lenços por engano².

Meus cumprimentos em casa,
Agradecido, Bernardo Rodrigues

¹ Para falar como os assessores empreiteiros igualmente vestidos que você já viu em muitos escritórios e nos restaurantes de estrada em toda a sua vida política ou acadêmica e devido à sua urbanidade e inteligência têm evitado perto de sua armada consiglieres, como o diabo corre da cruz ou a partir de esses belos arranjos de alho normalmente vistos em paredes, cozinhas e corredores de construções arcaicas populares no sul ou no norte de Portugal.
² Tradução livre de “Prosas Vadias”, Alexandre O’Neill.

BAUKUH, escritório

Prezado Prefeito Fernando Medina

Propomos a elaboração de uma tributação sobre os imóveis de aluguel. O dinheiro ganho com esta política fiscal pode ser investido na construção ou reparação de escolas ou outras instalações públicas.

Nossos cumprimentos,
baukuh 

© Pedro Pitarch
© Pedro Pitarch

Pedro Pitarch, arquiteto

Caro Prefeito Fernando Medina,

Vamos jogar.

Sob estas linhas, ofereço-lhe um Atlas das obras de arquitetura atualmente sem uso, abandonadas e muradas que estão espalhadas por todo o centro de Lisboa, especificamente no bairro de Alfama. Podemos chama-las de Não-Lugares: pedaços expluídos do centro da cidade demandando intensidade

Eles estão acompanhados dos edifícios mais relevantes, significativos e densos do bairro.

Como a arquitetura pode ajudar a negociar esse contraponto entre densidade e vácuo?

Como podemos estabelecer as ferramentas necessárias para preenche-los com contextos, em vez de edifícios? Consequentemente, construir estes Não-Lugares não exige o uso de tijolos e argamassa, mas é preciso estabelecer as mediações necessárias para construir um contexto público coletivo.

Vamos começar o jogo?

SERVIÇO:

Onde: Galeria dos Paços do Concelho - Paços do Concelho. Praça do Município. 1149-014 Lisboa. 

Quando: Inauguração 08 de Outubro de 2016.

 

Cita: Romullo Baratto. "Participantes da Trienal de Lisboa escrevem cartas ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa" 13 Set 2016. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/795145/participantes-da-trienal-de-lisboa-escrevem-cartas-ao-presidente-da-camara-municipal-de-lisboa> ISSN 0719-8906