Por que queremos flutuar? A psicologia da leveza na arquitetura

Em 1962, o arquiteto Buckminster Fuller imaginou uma cidade flutuante que libertaria a humanidade da dependência da Terra. O projeto hipotético consistia em enormes esferas geodésicas aéreas que levitariam naturalmente no ar quente aquecido pelo sol e que seriam ancoradas no topo das montanhas. Propondo abrigar milhares de pessoas, as Cloud Nine de Fuller tinham como objetivo aliviar a política de propriedade da terra, a escassez de moradias e auxiliar na preservação da natureza.

Passado mais de meio século, seguimos distantes de concretizar a ideia de Fuller. Criar uma estrutura verdadeiramente flutuante na superfície da Terra permanece, até o momento, um ideal inatingível. Enquanto os suportes ainda se impõem como necessidade, manipulamos sua posição, sua intensidade, sua quantidade, desenvolvendo acrobacias para, ao menos, nos aproximarmos da ideia de vencer a gravidade, esse desejo que há tanto tempo fascina a humanidade.

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O mito de Ícaro e Dédalo, tapetes voadores, castelos no ar são alguns dos sonhos que mostram esse fascínio, permeando os aspectos da sociedade e da existência humana. De forma prática, no entanto, a gravidade é desafiada de diferentes maneiras. Na pintura, Kazimir Malevich – inspiração declarada de Zaha Hadid - mostrava em suas composições sem peso, figuras geométricas flutuando sobre fundos brancos. Ele, inclusive, chegou a expor suas pinturas pendurando-as de forma que parecessem flutuar na parede.


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Estação do Corpo de Bombeiros de Vitra / Zaha Hadid Architects © Wojtek Gurak

No design, Marcel Breuer em 1926, usou o aço tubular curvado para criar um assento em que o usuário ficava suspenso sobre o vazio, em vez de firmemente apoiado em quatro pernas robustas. No cinema, Alfred Hitchcock no filme Um Corpo que Cai (1958), aborda, mesmo que sob outro viés, a ideia da gravidade e o medo persistente de cair através do tempo e do espaço. É na arquitetura, porém, que a busca por desafiar a gravidade se torna mais evidente.

Desde a conclusão das Pirâmides, a arquitetura torna-se cada vez mais leve, e no século XX, esse processo se acelerará e ela se tornará ainda mais leve. - Bernard Tschumi

Uma leveza que parte de vários aspectos, começando pelo utilitarismo. Alguns pesquisadores afirmam que as palafitas, construídas sobre a água ou solo, são um dos métodos de construção mais antigos do mundo, e na busca pela leveza, talvez o primeiro. Elas datam do Neolítico e Idade do Bronze, e permanecem até hoje principalmente nas construções ribeirinhas, regiões costeiras ou planícies alagáveis. Trata-se de uma estrutura significativa para o surgimento e a sobrevivência da ideia de estruturas flutuantes, desenvolvidas principalmente por razões práticas de segurança.

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Khudi Bari / Marina Tabassum Architects. Image © Asif Salman

Da utilidade ao marco espiritual, as catedrais góticas, por exemplo, buscavam superar a gravidade. Dessa vez, não em nome do conforto físico, mas do espiritual. Seus arcos ogivais, somados às abóbadas nervuradas e à notável capacidade de manipular a luz — por meio de vitrais ou de aberturas estratégicas, como na cúpula da Catedral de Florença concebida por Brunelleschi — faziam com que essas construções parecessem tocar os céus.

Na leveza, alcançada pelo arrojo estrutural e técnico, configuravam-se como espaços destinados a elevar a experiência espiritual, conduzindo o olhar — e a alma — para o alto. Uma sutileza interpretada como tentativa de transcender o peso do corpo, quase como uma negação da própria finitude.

Tal grandiosidade, ao mesmo tempo em que permitia a ascensão do espírito, convocava também a sensação de opressão — de insignificância diante de sua própria escala. Sentimentos opostos, mas complementares, convergindo para um mesmo fim de subordinação. Sensação que também se manifesta na manipulação da leveza arquitetônica em um contexto completamente distinto: o do modernismo.

As estruturas cívicas do modernismo soviético, por exemplo, utilizaram o desenvolvimento das técnicas de construção, agora em aço e concreto, para criar enormes vãos em estruturas que pareciam flutuar. Dessa vez, a leveza poderia representar o poder e a técnica que (quase) vence a gravidade. Apesar do conceito dos pilotis e da planta livre surgir por uma ideia de liberação do solo para permitir a continuidade da paisagem natural ou do fluxo urbano, a composição estrutural permitiu diferentes manipulações e interpretações, como o Sanatório Druzhba, na Criméia.

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Druzhba Sanatorium: A Soviet Monument Suspended Between Earth and Sea © Dimant under a CC license

Ilustrando as diferentes percepções criadas por uma mesma técnica construtiva, na clássica Casa da Cascata, de Frank Lloyd Wright, por exemplo, o surpreendente jogo de volumes alçados para a natureza marca a história não pela imposição de uma ideologia política, mas por uma simbiose com a natureza. No entanto, o fato de desafiar a gravidade ao inserir a casa sobre a cascata e não em frente ou redor dela, não representaria também superioridade e domínio frente a natureza?

Na técnica precisa que praticamente beira o impossível, os olhos destreinados se detêm em uma ilusão estrutural que parece simples, mas é baseada em cálculos precisos de ancoragem, contrapeso e extensão. E é justamente nessa extrema "simplicidade" que reside a veneração.

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Casa da Cascata / Frank Lloyd Wright

Uma simplicidade que vem sendo tensionada ao longo dos anos, tornando a busca pela leveza cada vez mais presente e cada vez mais extrema. A arquitetura de hoje, liberta dos cânones e restrições de estilos tem criado condições para uma expressão criativa independente. O Pavilhão Blur da dupla norte-americana Diller+Scofidio para a Expo 2002, na Suíça é um exemplo disso.

Sua performance arquitetônica se efetiva através do espargimento de uma nuvem de vapor d'água lançada ao ar por orifícios presentes em toda a estrutura metálica do pavilhão. A leveza da arquitetura é então explorada em sua potencialidade, já que a materialidade líquida (ou aérea) da performance arquitetônica dura somente alguns segundos — o que se repetirá em novo instante futuro.

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Blur Building. Pavilhão de Exposições, Yverdon-Les-Bains, 2002. Arquitetos: Diller Scofidio + Renfro. Image © Diller Scofidio + Renfro

Neste momento, o Pavilhão Blur rompe com um dos pilares fundamentais da arquitetura — justamente a ideia de permanência. Os preceitos seculares de Vitrúviofirmitas, utilitas, uenustas — são questionados, já que a arquitetura do pavilhão independe deles para se afirmar como obra — quase imaterial. A própria definição de espaço na arquitetura é colocada em discussão porque a obra pode ser percebida e vivenciada não tanto como superfície envolvente material e sim como um evento arquitetônico que convida a uma experiência penetrante, poética, de imersão. Sensações similares as oferecidas pelo Museu Zaishui, de junya ishigami + associates, ainda que de forma mais "material".

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Museu Zaishui / junya ishigami + associates © arch-exist

Mesmo ciente da impossibilidade de esgotar todas as formas possíveis de associação entre a ideia de leveza na arquitetura e as sensações que esse gesto pode trazer, procurou-se abordar aqui uma espécie de percurso histórico para, mais do que nada, investigar esse fascínio por vencer a gravidade que permeia a história da arquitetura.

A pergunta inicial do por que, afinal, queremos flutuar poderia, então, ter diferentes respostas: para sobreviver, para demostrar poder, por simples deleite, para questionar os cânones atuais do que é arquitetura, como o Pavilhão Blur, mas também do que ela poderia ser, como as Cloud Nine, de Fuller.

No entanto, independentemente do desfecho, a busca pela leveza parece intrínseca à ânsia humana de se desafiar — de alcançar o impossível, de tornar-se capaz de dissolver toneladas de matéria com um simples gesto. É a arquitetura tensionando os próprios limites nessa contradição — nem sempre bela, mas por vezes estranha e angustiante — revelando, como popularizou Marshall Berman, que "tudo que é sólido se desmancha no ar".

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Edifício no Porto de Antuérpia / Zaha Hadid Architects © Helene Binet

Este artigo é parte do Tema do ArchDaily: Leve, mais leve, levíssimo: redefinindo como a arquitetura toca a terra. Mensalmente, exploramos um tema em profundidade através de artigos, entrevistas, notícias e projetos de arquitetura. Convidamos você a conhecer mais sobre os temas do ArchDaily. E, como sempre, o ArchDaily está aberto a contribuições de nossas leitoras e leitores; se você quiser enviar um artigo ou projeto, entre em contato.

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Sobre este autor
Cita: Camilla Ghisleni. "Por que queremos flutuar? A psicologia da leveza na arquitetura" 29 Abr 2026. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/1040509/por-que-queremos-flutuar-a-psicologia-da-leveza-na-arquitetura> ISSN 0719-8906

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