
À medida que a inteligência artificial continua transformando setores da economia e reconfigurando indústrias inteiras, instituições e indivíduos se veem obrigados a se preparar — e a se adaptar rapidamente — às mudanças que essas tecnologias parecem impor. No entanto, a pressão mais precisa não está apenas na forma como a IA altera o modo de trabalhar e viver, mas nos modelos de negócio e nas lógicas de investimento das empresas que a desenvolvem: a concentração de capital, as novas demandas por capacidade computacional, a corrida por talentos altamente especializados e a infraestrutura necessária para sustentar esse ecossistema. Na Grande Baía — ancorada por Guangzhou, Shenzhen e Hong Kong — essa dinâmica é particularmente evidente. Iniciativas governamentais vêm acelerando o crescimento do setor, com políticas e instrumentos de planejamento começando a traduzir um campo aparentemente intangível em forma física: revisões de zoneamento, destinação de terrenos e o surgimento de tipologias arquitetônicas voltadas à IA, de laboratórios de pesquisa a grandes centros de dados.
Em Hong Kong, os sinais são cada vez mais explícitos. A reorientação do Cyberport como um centro de supercomputação em IA, a implementação de um robusto programa de subsídios para inteligência artificial e o desenvolvimento estratégico do Tecnopolo de San Tin como um polo de inovação e tecnologia — conectando data centers, oficinas de prototipagem e pesquisa aplicada — delineiam uma agenda institucional voltada ao futuro. Do outro lado da fronteira, movimentos paralelos reforçam essa mesma direção espacial: Qianhai, em Shenzhen, vem sendo estruturada para incentivar a concentração de atividades ligadas à IA, enquanto a política de Guangdong para uma Zona Piloto de Inovação e Desenvolvimento da Economia Digital formaliza ainda mais essa ambição regional. Em conjunto, essas iniciativas passam a mapear a IA não apenas como estratégia econômica, mas como uma nova arquitetura da urbanização — materializada em campi, salas de servidores, corredores logísticos, infraestruturas energéticas e nas narrativas públicas que acompanham os chamados “distritos de inovação”.
O debate sobre a IA como ferramenta para a arquitetura já é amplamente conhecido — abrangendo desde assistência ao projeto e visualização até otimização construtiva, processos industriais e gestão de obras. É justamente nesse contexto que a Bienal Hong Kong–Shenzhen de Urbanismo/Arquitetura 2025 (UABB HK 2025: Techformance) se mostra especialmente oportuna. Por meio de um esforço curatorial consistente — em colaboração com arquitetos e profissionais de diferentes áreas — a exposição não se limita a perguntar o que a IA pode fazer pela arquitetura; ela desloca o foco para investigar o que a IA já está fazendo com a arquitetura: como reorganiza espaços de produção e cultura, e como sua “performance” é encenada, naturalizada e contestada no ambiente construído.
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Techformance como campo de teste: processo, performance e responsabilidade
A UABB HK 2025 discute como a IA deixa de ser apenas uma atualização neutra de ferramentas para se tornar uma mudança de autoria — do arquiteto como agente único para uma prática em que máquinas passam a “coautorizar” por meio de geração, otimização e fabricação. Surge, então, uma questão mais profunda sobre responsabilidade profissional: se o projeto é cada vez mais mediado por modelos e algoritmos, onde se localiza a autoria — e o que acontece com a intuição, o julgamento e a intenção cultural? Os curadores também evidenciam uma tensão central: a promessa de desempenho e eficiência da IA (modelagem de sustentabilidade, otimização, fabricação robótica) pode facilmente se transformar em uma lógica niveladora, a menos que a arquitetura permaneça comprometida com aquilo que não é facilmente quantificável — emoção, memória, ritual e a vida social do espaço.


“Techformance” se configura, assim, como um dispositivo curatorial: não apenas tecnologia em exibição, mas tecnologia enquanto performance — um encontro encenado em que o público observa, em tempo real, a negociação da autoria. Ao privilegiar demonstrações ao vivo, instalações interativas e provocações especulativas, a exposição propõe que o impacto da IA não pode ser compreendido apenas por meio de objetos finalizados; ele deve ser analisado como processo, como um ciclo de retroalimentação entre intenção humana e resposta da máquina. A força da exposição reside justamente em tratá-la como um campo de testes: um espaço onde as ferramentas não são celebradas como inevitáveis, mas interrogadas como colaboradoras — avaliando o que ampliam, o que automatizam e o que silenciosamente substituem. Assim, a UABB reposiciona a IA não como um futuro distante, mas como uma condição já presente, que redefine a forma como a arquitetura é concebida, avaliada e legitimada.
A estrutura da exposição em dois locais vai além de uma divisão logística — ela se configura como um diagrama curatorial que materializa o próprio espectro proposto. Ao distribuir “Techformance” entre o Oi! e o East Kowloon Cultural Centre, a UABB HK 2025 posiciona a IA entre duas condições arquitetônicas fundamentais em Hong Kong: a continuidade patrimonial por meio da reutilização e a infraestrutura cultural voltada ao futuro, construída do zero. Antes mesmo de entrar em contato com as obras, o visitante já vivencia essa tese — a IA como agente que negocia o que é preservado e o que é produzido.

O Oi!, enquanto espaço artístico adaptado de uma construção existente, enfatiza a materialidade, as limitações e a inteligência acumulada do trabalho com o que já existe. Ele insere a IA em um contexto de continuidade e camadas, onde inovar também significa não apagar. Já o East Kowloon Cultural Centre opera como um contraponto institucional: um complexo concebido para a performance contemporânea, estruturado pela lógica da programabilidade — espaços calibrados para encenação, tecnologia e experimentação. Em conjunto, esses dois polos reformulam a questão central da bienal em termos urbanos: em um futuro moldado pela IA, a produção cultural será orientada pela adaptação do existente ou por novos dispositivos espaciais que tornam o “futuro” visível por meio de sistemas, escala e performance?


Ao longo desse espectro, exposições como Generative Futures: AI in Architectural Design, de Hao Zheng, e Does AI Dream, de Urban Projection & Streetsignhk, representam dois polos do impacto da IA na arquitetura. A primeira apresenta a IA como uma extensão pragmática da técnica — com geração tridimensional baseada em difusão e redes neurais — deslocando a prática da especulação imagética para resultados construtivos e mensuráveis, e redefinindo o arquiteto como alguém que projeta restrições e edita resultados dentro de um sistema orientado por dados. Já a segunda defende aquilo que a otimização não captura: o contingente, o não racional, o intuitivo que torna as cidades vivas — devolvendo a provocação ao espectador: se a IA “sonha”, nós ainda sonhamos? Em conjunto, essas obras reforçam a ideia de que a IA é simultaneamente uma potência geradora e um regime de racionalização, e que a agência da arquitetura reside justamente na negociação dessa tensão.

Para além da ferramenta: projetar para ambientes de IA
Para além da IA como ferramenta — de sua capacidade de gerar formas, otimizar processos ou acelerar a produção — surge uma questão ainda pouco explorada: o que significa projetar para a IA? O impulso político na região já se traduz em um ciclo acelerado de construção de ambientes dedicados à IA — centros de dados, instalações de supercomputação, laboratórios de pesquisa, oficinas de prototipagem e toda a infraestrutura que os sustenta. Esses espaços são frequentemente tratados como recipientes neutros de eficiência: fechados, controlados, altamente técnicos, com a arquitetura reduzida a um invólucro funcional para energia, refrigeração e segurança. Construídos com rapidez, correm o risco de se tornar uma nova geração de “fundos urbanos” — essenciais para a economia, mas ausentes da vida social e espacial da cidade.

Se a IA é hoje um regime infraestrutural — uma ecologia que envolve energia, calor, território, logística e trabalho —, a questão arquitetônica não pode se limitar à interface ou ao processo. É preciso enfrentar como ela redefine tipologias e políticas urbanas: onde essas estruturas se implantam, o que deslocam, quão visíveis se tornam e quem se beneficia de sua proximidade. A computação não é imaterial; ela se manifesta em subestações, sistemas de resfriamento, áreas de segurança e lógicas de uso do solo que podem transformar grandes porções da cidade em zonas especializadas, com pouca reciprocidade urbana. O desafio, portanto, não é apenas acomodar novos tipos de edifício, mas negociar sua relação com a vida cotidiana — acesso, permeabilidade, interface pública e as narrativas que apresentam a inovação como um bem coletivo, e não como um enclave isolado.
Ao mesmo tempo, reside aí uma oportunidade: esses ambientes estão sendo construídos em grande escala e com rapidez suficiente para ainda serem repensados. Em vez de tratar a infraestrutura de IA como algo a ser ocultado ou isolado, a arquitetura pode investigar formas de coexistência: limites que acolham a vida pública, térreos que integrem programas cívicos sem comprometer a segurança, e sistemas técnicos — como calor residual, água e energia — que se tornem recursos urbanos legíveis e compartilháveis. A questão central é se a infraestrutura da IA pode ser incorporada à cidade como uma nova forma de serviço público — projetada com equilíbrio, reciprocidade e valor coletivo —, de modo que aquilo que sustenta o futuro não seja excluído do cotidiano, mas integrado a ele de maneira consciente.

Este artigo é parte dos Temas do ArchDaily: Tecnosfera. Mensalmente, exploramos um tema em profundidade através de artigos, entrevistas, notícias e projetos de arquitetura. Convidamos você a conhecer mais sobre os temas do ArchDaily. E, como sempre, o ArchDaily está aberto a contribuições de nossas leitoras e leitores; se você quiser enviar um artigo ou projeto, entre em contato.


























