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XXIV Congresso Panamericano de Arquitetos critica contrato Brasília / Singapura

XXIV Congresso Panamericano de Arquitetos critica contrato Brasília / Singapura
Vista aérea de Brasília: Capital Federal do Brasil
Vista aérea de Brasília: Capital Federal do Brasil

Um dos temas mais discutidos durante o XXIV Congresso Panamericano de Arquitetos (XXIV CPA), que aconteceu em novembro na cidade de Maceió, foi o polêmico contrato firmado entre o Governo do Distrito Federal e a empresa Jurong Consultoria, de Singapura, para o planejamento de Brasília para os próximos 50 anos.

O “Plano Brasília 2060”, sofreu inúmeras críticas não só pelos arquitetos e urbanistas brasileiros, como por todos os profissionais da comunidade americana e europeia presentes no XXIV CPA.

Para o presidente da UIA (International Union of Architects ), Albert Dubler, Brasília é um exemplo para arquitetos do mundo inteiro e a participação da sociedade é fundamental em um planejamento urbano como este. “Não podemos resolver as dificuldades de Brasília sem consultar a população. É preciso ter governança. Eu não imagino como esse diálogo vai acontecer com Singapura”, ressaltou.

A FPAA (Federación Panamericana de Asociaciones de Arquitectos) após ter conhecimento do contrato realizado entre o Governo do Distrito Federal e a empresa de consultoria Jurong, cujas cifras alcançam os R$ 4,5 milhões, manifestou apoio à iniciativa de repúdio do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil), dada a dimensão simbólica de Brasília e seu título de cidade tombada pela Unesco como “Patrimônio Cultural da Humanidade”.

Adelegação peruana de arquitetos sugeriu ampliar a intervenção iniciada pelo IAB, a partir da divulgação dos desdobramentos do caso em todos os países membros da FPAA, com o objetivo de preservar não só Brasília, mas todos os patrimônios culturais das Américas.

A FPAA aprovou um documento que será encaminhado à Unesco, sobre a apreensão da instituição em relação às “consequências negativas à cultura” que o contrato pode gerar. Segundo o presidente do IAB, Sérgio Magalhães: “Não podemos deixar que um símbolo da expressão cultural brasileira seja destruído ou deturpado por uma empresa que não tem a menor afinidade cultural conosco. Por isso, contamos com o apoio da FPAA e da UIA, para preservar um patrimônio que não é apenas do Brasil, mas da humanidade”.


As críticas ao projeto de planejamento estratégico segundo o presidente da União Internacional de Arquitetos - Albert Dubler, assinalou que uma das principais razoes é política: "O Brasil é um país democrático e Singapura, não; então existe um desequilíbrio." Para Dubler, a segunda razão é a própria arquitetura. "Brasília é um exemplo para arquitetos do mundo inteiro. Não sei para quem Singapura é um exemplo. Então, é como se chamássemos o McDonald’s para fazer um restaurante de gastronomia na França." A terceira, segundo ele, é a noção de escala. "A superfície de Singapura é do tamanho de Maceió. É surpreendente que tenham procurado uma empresa assim para fazer uma projeção de longo prazo para uma metrópole que foi escolhida para ser a capital do seu país."

Há cinquenta anos, quando foi tomada a decisão política de se construir Brasília, diz Dubler, outras cidades foram criadas, como as que estão em torno de Paris. "Todas essas iniciativas encontraram dificuldades depois de certo tempo. Quando analisamos essas dificuldades, vemos que não podemos resolvê-las sem consultar a população", acrescenta o arquiteto. "É preciso ter governança. Eu não imagino como esse diálogo vai acontecer com Singapura. Ter uma ideia de projeto representa 5%. O desenho, 10%. Mas 85% é discutir com as pessoas. Para fazer isso, temos de convencer a população do projeto." Para o presidente da UIA, existe ainda uma questão simbólica: "A criação de Brasília aconteceu em um momento de exercício da democracia. A democracia não é solúvel no comércio, não é algo de mercado, por isso é importante a participação de pessoas do Brasil."

Em outubro, o secretário de Assuntos Estratégicos do DF, Newton Lins, disse ao Jornal Estado de São Paulo que a empresa de Consultoria Jurong foi escolhida por apresentar "técnica inovadora de análise territorial" e possuir "larga experiência em macrozoneamentos, com portfólio invejável de 1.700 projetos espalhados pelo mundo.A essência é muito mais de crescimento e desenvolvimento econômico do que urbanístico. O mais importante é atrair investimentos, indústrias. É uma empresa de consultoria e análise de gestão. As pessoas ficam assustadas porque é algo novo", disse Lins na ocasião sobre o planejamento previsto no contrato.

Segundo Albert Dubler, é justamente isso que torna o projeto "inquietante". "É um completo contrassenso em relação ao pensamento atual, aos projetos interessantes que são feitos hoje. Os bons arquitetos de Singapura não têm voz em relação à arquitetura de lá. A surpresa é que, se existem pessoas para fazer o projeto aqui, por que buscar em Singapura?", questiona o presidente da UIA.

No Congresso Panamericano de Arquitetos, houve um debate entre o presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) no DF, Paulo Henrique Paranhos, e o representante do governo do DF, Geraldo Lima Bentes. "Não se trata de arquitetura, mas do desenvolvimento que queremos", disse Bentes, referindo-se ao chamado Plano Brasília 2060. "Mas não existe planejamento econômico sem pensar na questão do território", rebateu Paranhos. Todas as perguntas de estudantes de arquitetura feitas aos dois abordavam o tema Singapura-Jurong.

O arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, homenageado na abertura do congresso, também criticou a parceria do governo do DF em entrevista. "Uma proposta para acompanhar o planejamento da cidade por 50 anos, acho isso lamentável. Não existe quem seja vidente ou faça ficção científica. É um planejamento que envolve um país que não tem afinidades culturais conosco."

O governador do Distrito Federal foi a Singapura no início de outubro para assinar o contrato com a Jurong Consultants. No contrato a empresa de Singapura tem prazo de 20 meses para elaborar os estudos e se compromete a fazer "pelo menos seis viagens" a Brasília.

Sobre este autor
Joanna Helm
Autor
Cita: Joanna Helm. "XXIV Congresso Panamericano de Arquitetos critica contrato Brasília / Singapura " 05 Dez 2012. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/84758/xxiv-congresso-panamericano-de-arquitetos-critica-contrato-brasilia-slash-singapura> ISSN 0719-8906