Casa Candeias / Carrilho da Graça Arquitectos

 

Por João Luís Carrilho da Graça.

VIRA-SE NO CAFÉ DO BICHO MAU.

Passa-se entre o pórtico da igrejinha  e as duas cadeirinhas da senhora. Desce-se pela rua do muro, chega-se a casa.

© FG + SG – Fernando Guerra, Sérgio Guerra

A casa é muito simples. Nela se plasmam as mais básicas sensações arquetípicas de uma casa mediterrânica. Uma casa com um pátio aberto a uma vista quase a sul, com água e uma árvore. Constrói-se num ressalto do terreno em que a suave pendente se intensifica um pouco.

© FG + SG – Fernando Guerra, Sérgio Guerra

Nós arquitectos gostamos de referir-nos à linguagem da arquitectura como se ela existisse. “Da Linguagem? Apenas o que Novalis queria da palavra: ‘atingir diversas ideias com um só golpe’ “[1] As casas que se vêem pelo caminho até aqui, têm telhados e telhas. Esta tem uma cobertura plana. Plana mas não horizontal.

© FG + SG – Fernando Guerra, Sérgio Guerra

Chegámos ao fim da tarde, na meia estação. Todos os vãos da casa estão abertos e as portadas de vidro e as de madeira escamoteadas no interior das paredes. Passa-se livremente do exterior para o exterior através da casa. A casa é um enorme alpendre, um coberto. O espaço de cada compartimento está suspenso, dilatado, perturbado pela inclinação do tecto.

© FG + SG – Fernando Guerra, Sérgio Guerra

Todo o espaço da casa se vive de uma forma automática: como se conduzíssemos um carro que não conhecíamos mas parecido com os que conduzimos anteriormente. De uma forma automática e intensa como se reconhecêssemos – descompostos ? curiosos ? apaixonados ? – um corpo desconhecido.

© FG + SG – Fernando Guerra, Sérgio Guerra

Tudo pode ser previsível. Excepto talvez a flutuação do tecto (uma penthouse, uma mansarda ?). “…; foi aqui que descobri Hegel, repetia ele sem parar, foi aqui que realmente me ocupei de Schopenhauer pela primeira vez, com o espírito claro e sem ser incomodado, as Afinidades electivas e A Viagem sentimental, foi aqui, na mansarda Höller, que subitamente tive acesso às ideias que me tinham estado vedadas durante todas as dezenas de anos antes da mansarda e efectivamente, como ele escreveu, as ideias mais essenciais, as mais importantes e as mais necessárias à minha vida; …”[2]

© FG + SG – Fernando Guerra, Sérgio Guerra

Atenção, esta casa não é a mansarda Höller. É a casa da minha irmã mais nova. Da tica.



[1] TAVARES, Gonçalo M.; INVESTIGAÇÕES . NOVALIS; DIFEL Difusão Editorial S.A.; Oeiras, 2002, p. 64.

[2] tradução livre de João Luis Carrilho da Graça; BERNHARD, Thomas; CORRECTIONS; Editions Gallimard; Paris, 1978; p. 11.

Ficha técnica:

  • Arquitetos:Carrilho da Graça Arquitectos
  • Ano: 2008
  • Área construída: 340 m²
  • Endereço: São Sebastião da Giesteira Évora Portugal
  • Tipo de projeto: Residencial
  • Status:Construído
  • Materialidade: Vidro e Madeira
  • Estrutura: Concreto e Tijolo
  • Localização: São Sebastião da Giesteira, Évora , Portugal
  • Implantação no terreno: Isolado

Equipe:

  1. Projeto: João Luís Carrilho da Graça, arquiteto
  2. Colaboradores: Francisco Freire, Pedro Abreu, João Maria Trindade, Tiago Castela, Joana Malitzki, Filipe Homem, arquitetos.

 

Informação Complementar:

  1. Fundações e Estrutura: AFA CONSULTORES, Pedro Morujão, engenheiro
  2. Instalações Hidráulicas, Gás: AFA CONSULTORES, Paulo Silva, engenheiro
  3. Física dos Edifícios: NATURAL WORKS, Guilherme Carrilho da Graça, engenheiro
  4. Instalações Elétricas, Telecomunicações e Segurança: Ruben Sobral, engenheiro
  1. Texto original por: João Luís Carrilho da Graça
  2. Custo: 300.000€
  3. Proprietário: António Grande Candeias

Sobre este escritório
Cita: Joanna Helm. "Casa Candeias / Carrilho da Graça Arquitectos" 16 Mai 2012. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/01-48971/casa-candeias-carrilho-da-graca-arquitectos> ISSN 0719-8906

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